Pela lei do atestado,
Da licença médica
Ao que se arrasta, passional,
Partido,
Frustrado,
Receoso,
Recuado,
Ressentido,
Desistente,
Corno,
Sem condições físicas de deixar o coração em casa.
Na discussão que ela começou. No desdém dele, traços mínimos de feição, que só ela reconhece. No almoço requentado que ele come no trabalho. Nos telefonemas que ela não escutou porque estava no banho. No trânsito em que se tem paz porque se está sozinho. No barulho das chaves dele invadindo a fala do ator da novela; a novela dela. No comentário dele, carregado de sarcasmo. No carinho que ele espera. No carinho que ela nega. Na página que ela quis terminar de ler e no assunto que ela quis terminar de conversar. No que ele não quis dela. Na luz que se apaga, no silêncio que pesa. No cheiro que tem a cama depois da reconciliação. Nele, nela.
Eu quero passar a madrugada falando de amor. Insistir que Lacan sacou o desejo humano há décadas e que ainda tem gente cientifizando os afetos quase que de teimosia. Eu quero descobrir uma entrelinha nossa que me ruborize o rosto. Quero constrangimento, novidade, estranheza. Também quero intimidade, simbiose e frases suas que abracem as minhas. Vou beber um pouco mais do que o previsto e dançar até no intervalo entre uma música e outra. Vou me sentar com você em frente à janela, mal ver seu rosto na meia luz, já saber que você está sorrindo. Daí a gente janta o jantar que deu errado. Ama do jeito certo. Dorme vestindo suor. Quero isso, mas quero pra todos os dias, como o filme da Coppola que não sai mais da programação e sempre vem pra me arrancar sorriso, que audácia, como se fosse pela primeira vez...
Ela dizia que podia ver a aura das pessoas quando semicerrava os olhos. Dizia que era uma prática de constatação física, e me deu uma explicação sobre energia e física quântica que me pareceu decorada de alguma revista ou edição do Fantástico. Ela dizia que chegou a mim porque focou bem em minha testa, “são anos de prática, não é pra qualquer um”; ela me focou a testa e soube que a minha energia era boa e bastante convidativa. Eu não sabia se ria ou concordava. A Júlia sempre foi de me roubar as palavras, e, em nossa linguagem peculiar, a Júlia só dizia – eu respondia com acenos e murmúrios. E aí ela dizia, os olhos apertados, franzidos, fuzilando-me o alto da cabeça:
- Sua aura tem um buraco. É faltante.
As tequilas chegavam de duas em duas. Duas pra Júlia. Uma Coca pra mim. Eu não bebia, que se eu bebesse, dizia, e isso meio que mexia no equilíbrio das coisas. Então ela dizia por mim. E dizia em mim, debruçando-se cambaleante sobre meu peito em uma intimidade que nunca foi minha, mas dos caras, das dezenas de caras que eu a vi beijar nos últimos anos, admirando-os com olhos etílicos e lentos de quem foca energia em testa ou sei lá qual era a lorota da vez nesses tempos. Seja qual fosse, funcionava. Os caras eram muitos. E eu nunca era os caras.
Nossa conversa caminhava em tropeços. Quando não falava sobre as bobagens da física quântica, falava sobre as bobagens da medicina. A Júlia gostava de folhear essas revistas científicas caras pra ter sempre algo a ser transmitido. Decorava e não comprava, sentindo-se malandra – roubava conhecimento. Daí ela balançava a cabeça de um jeito bastante pateta e sorria: “eu que te ensinei essa”. Eu gostava disso. Era das poucas coisas que a Júlia fazia das quais eu não conseguia sentir raiva.
O primeiro beijo com a Júlia foi tortuoso. Ela me empurrava com a força de seu corpo, como quem diz “desabo em você pois sei que você me segura”; uma mão que deixei, já desistente, sobre o balcão molhado de cerveja, e a outra segurando a cabeça pesada de Júlia contra a minha. Entre nós, um grito em meu peito. Afetos e desalentos dos anos que se passaram. O sorriso com que ela me assassinava todas as segundas na faculdade. O perfume de seus pulsos gesticulantes, nunca tão próximo às minhas narinas como nesse momento. E a música - mas que droga de música favorita, logo agora?, era essa, do Radiohead, que, pior: ela sabia que eu adorava. Um sorriso no meio do beijo, senti os cílios subirem pelas minhas bochechas:
- Pago pra ver você esquecer isso que está acontecendo.
Era a mesma Júlia de anos atrás. Embriagada e carente. Consciente de todo o efeito devastador que causava em mim. Mesma Júlia, só que mais perto.
A paixão, química e biologicamente falando, leva cerca de dois anos para se extinguir. Ela que me ensinou essa. Eu digo que levou um curso de graduação inteiro e bota mais tempo nisso. Pro inferno com os "dois anos".
Falo em um lirismo que ninguém interpreta direito. Meu olhar pega coisa que pouca gente vê. Percebo agora onde é que essas pontes se racham. O meu modo de funcionamento deve ser muito esquisito ao olho cru.
Sou uma pessoa de pele clara e cabelo escuro entre loiras-castanhas queimadas de sol. Tenho gostos peculiares e me importo com uns assuntos fora de pauta. Meu carioquês é meio fajuto e dá pau de vez em quando. Não como carne. E nem peixe - o pessoal cool tem adotado esse vegetarianismo às avessas em que se come frango e peixe, nunca entendi isso. O meu brinco é de um lado só. Minhas gírias são do fundo do baú. Eu escrevo, o que já me molda o olhar de uma tal forma que causa ruído em algumas relações; tem sempre alguém pra censurar meu lirismo fora de hora, ou rir dele. Gente que escreve tem uma tendência a ver tudo muito cheio de sentido. Eu chamo de um olhar desmerdificador - qualquer coisa serve, qualquer merda rende. Eu vejo uma graça a mais nas coisas, fazer o quê.
Sou fascinada por algumas esquisitices. Carrosséis, estrelas e animais me fazem sorrir. Tenho um pé na infância e outro na idade adulta, fazendo espacate, que a vida não esperou o meu amadurecimento e nem vai esperar o seu. Escuto música que nem adolescente - as pessoas vão envelhecendo e ficando chatas com a música, música vira plano de fundo do jantar. Eu não consigo manter sequer uma linha curta de pensamento enquanto a voz do artista ecoa e me perturba e me invade a mente e os afetos. A música me atravessa, ainda - eu sou adolescente musicalmente. Ainda conheço a sensação da idolatria. Tenho uma tatuagem com uma frase de um filme pouco estimado pela mídia, e meus amigos têm borboletas e tribais do Google. Como foi que aconteceu de eu ser tão à parte do mundo e me dar conta disso agora?
Eu sou um ponto preto em meio a uma imensidão de pontos brancos, e isso me transtorna. Tenho pra mim mesma que eu deveria admitir essas nuances pessoais como qualidades da minha singularidade, mas a sensação primeira é de que a distoância é um modo desconfortável de existir. Existe essa palavra? Distoância? Eu invento. Cabe ao meu senso. Meu senso de ridículo, meu senso de estética, de padrão, de normas parece ter um limiar um pouco diferente do que se propõe.
Sou diferente, ou vai ver sou igual, o mundo é que ainda não saiu do armário pra combinar comigo.
Love Ain't Gonna Let You Down by Jamie Cullum on Grooveshark
Vem, que eu já fiz o café, já penteei o cabelo, já arrumei o coração e lugar não te falta. Vem, que já abri as cortinas, varri o chão e lavei a cara. Vem, mas bate antes. E me espera abrir, que eu demoro. Pode vir e espera. Vem com o tapa que eu venho com a cara.
Uma amiga me dizia, pra gostar é preciso ficar vulnerável. Como é difícil estar vulnerável de novo. Como é difícil perceber que não se está vulnerável, que se é.
Vamos desistir do que claramente se quer? Vamos acolher o luto que vem pela frente ao finalmente parar de refutá-lo? Vamos buscar outra rota quando nenhuma dessas outras rotas parecem possuir atrativos? Vamos - o que mais há para se fazer se não o fazer da sábia desistência, do não-fazer? Eu vou, não, você vai: eu só fico.
Tenho clara consciência do que quis para mim, não, do que quero, ainda, e eu não vou vestir meu sorriso no dia de hoje, não me cabe, só me pesa. Se possível, vou passar o dia em casa, vou me deitar no seu lado da cama, escutar uma daquelas suas músicas favoritas que eu sempre coloquei como se fossem nossas, no meu delírio a gente era assim, meio conjunto o tempo todo, e vou me amparar mais um pouquinho, não pretendo telefonar aos amigos, todo mundo já sabe do que se sucede entre eu e você, é chover no molhado, a gente foi até insistente demais na cisma de se servir um pro outro. Nosso problema é o molde de afeto, minha peça de quebra-cabeça é exatamente como a sua, e justamente por isso impassível de ser encaixada uma na outra.
Deixar pra lá é uma prática que me exige demais. Faço, mas faço com dor no peito, pressão nas têmporas, borrão nos olhos. Deixar você pra lá nunca esteve nos meus planos. Pra onde eu devo ir agora?
Ariel: What? What are you thinking?
Andrew: Nothing. Only that our whole lives might
have been different if only I had acted.
Coisas que resgatei. De muito antes de qualquer desilusão, de antes da acidez que a vida traz. Valsinhas. No tempo da maldade, acho que eu não tinha nem nascido.
Toda hora chega a hora
Estou por ora no agora
Enquanto não chega a Hora
Vou-me embora mundo afora
Minha hora está chegando
Minha vida se acabando
E eu aqui contando as horas.
*
Minha saudade
De tão teimosa
Tão impaciente
De tão
Materializou-se por completo
Decidiu tornar-se gente
Não te preocupes mais, meu bem
Com os nossos assuntos pendentes
Minha saudade conversa baixinho
Sentada na tua frente
O rapaz deu um tiro no queixo. Explicaram os mais próximos:
- Foi amor.
Era pouco adoecido, o rapaz. Bastante adolescido. Das intensidades afetivas, dos pôsteres que cobrem paredes inteiras, do sofrer pelo dia de ontem e nada pelo de amanhã. A arma era do pai - foi um tiro de ensaio, de teste, um tiro que há muito não se intuía àquele revólver. A morte é o único esporte em que a sorte de principiante já lhe basta. Deu azar, o menino. Deu sorte.
*
Do que se estraga, do que se mastiga mas não se engole, do que se descarta, do que se modifica, o que é que ainda que fica? Quem é você, nesse resto de vida? Quem você optou por não ser?
Se eu freasse meu carro junto à calçada. Se eu apenas buzinasse e gritasse seu nome. Se eu alguma-coisa-qualquer-coisa fizesse, talvez não acordasse hoje com você me ocupando o pensamento. Mas não. Que não seria somente o seu rosto que se voltaria para mim ao meu chamado – você estava acompanhada.
Passei atordoado pelos dois, sentindo a garganta se estreitar. Mantive-me atento ao retrovisor: você ria com a cabeça para trás, andava trocando um pouco as pernas, estava visivelmente embriagada, mas em um contentamento muito sincero. Roubou um beijinho no pescoço do cara, próximo à orelha, e eu quase pude sentir um eco da sua risada no meu próprio ouvido, já em outra esquina, já longe, já perdendo um pouco o propósito de aonde eu ia e a que ia. Perdendo. A palavra perder está recorrente por aqui.
Não sei em que ponto a gente se perdeu um do outro. Acho que são as tais coisas, dizem, que não são pra ser.'
Força tal qual a gravidade, perturbação contínua e pungente, um morar em lembranças no qual só se entra pelas frestas da janela pois não se tem mais a chave da porta, a fantasia de conversas que poderíamos ter e das expressões que seu rosto faria e do que eu diria se isso ou se aquilo, a urgência por conselhos que não sigo, a vontade de cuspir tudo aquilo que anseio sem pesar nem mesmo as vírgulas, a tortura que é esperar por sinais e certezas que teimam em não virem ou que vêm lentas demais - a infelicidade.
(Saudade-gostosa-de-se-sentir não é saudade. Tomem nota)
Meu conceito de amor esteve quase sempre relacionado a movimento – e eis que você hoje balança esse que é de certo um dos meus conceitos mais fundamentais. Amor é movimento. É o que impulsiona. Certo? Errado – você tem me mostrado há alguns meses a capacidade que temos de ficarmos inertes diante de um sentimento novo. Estou aqui, sentindo sem dizer, escrevendo sem mostrar, desejando sem admitir. É madrugada e tudo o que eu fiz nas últimas horas foi o pensamento nas minúcias das nossas lembranças disfarçado de tentativa de sono. Eu nem quero esse sono. Sorrio sozinha, movimentada pelas expectativas escondidas em cada aresta de cada lembrança, em algo que foi dito de tal forma ou feito de tal jeito. É, pois, uma inércia seletiva, pois eu já cheguei a você, mas cheguei com limites muito bem definidos – e dizer com palavras certeiras o que tenho sentido esteve fora de cogitação. Estou inerte frente ao que eu sinto, esperando um primeiro passo seu que me dê a sensação de movimento, como quando o trem ao lado acelera e nós, de súbito, não nos sentimos mais parados.
Você não faz idéia, mas eu tenho escrito sobre a gente, e como; você nunca soube que um dia seria um desses caras por quem eu gasto os dedos e as palavras. Não soube que hoje é por você que eu encho os pulmões em um refrão que faz um determinado sentido, no meio de outros pulmões que expressam os próprios afetos para além de si. Eu sou essa pessoa hoje, melhor: você é essa pessoa pra mim. O impulsionante. E não conseguir dar movimento a toda essa experiência que tenho dentro de mim tem me transtornado bastante. Não digo falta de coragem; muito mais de perspectiva. Acho mesmo que, em algum lugar da minha vida e da sua, nossos caminhos tornaram-se paralelos e nunca mais vão se cruzar.
- Posso fazer um comentário?
- Pode.
- Eu nunca vi um olhar tão triste como o seu. Você precisa de ajuda?
- Poxa, obrigada.
- É sério, moça. Que olhos tristes. Expressivos demais. Talvez se você chorar, põe um pouco pra fora dessa tristeza. Chora um pouco. Os seus olhos estão de desabar o mundo inteiro junto. Cuidado com isso.
- Eu posso fechar os olhos, se estiver incomodando.
- Não, moça. Estou tocada pela sua tristeza. Não é pena, não, pena é feio. Mas me deu uma vontade enorme de compartilhar dessa sua tristeza. Como se eu fosse uma psicóloga.
- Engraçado, e a psicóloga sou eu.
- É sério, moça? Eu não sabia mesmo que dava, isso.
- Dava?
- É, tristeza.
- Como?
- Não sabia que psicólogo ficava triste.
- Quem me dera um diploma me separar dos meus problemas!
- Seus olhos sorriram agora, moça. Seus olhos são quase gente.
- Os olhos sorriem, mesmo.
- Mas você ainda está, né?
- O que?
- Triste.
- Bastante.
- Fica assim não, moça. Vai passar.
Às vezes falta gesto amplo, palavra sutil, falta carisma, calor, carência; às vezes falta feromônio ou bondade - e quando falta feromônio e bondade, aí, amigo, eu quase não lhe cedo tempo para que me ganhe aos miúdos, em parcelas -, às vezes falta um time certo, uma família certa, uma certa estrutura que me instigue a um encaixe, a um colo; falta consistência ideológica, um palmo a mais, idade a mais, um pau duro; falta até mesmo um resto no coração injuriado, que lhe dê a esperança quase que infantil de se permitir à felicidade, resto feio, mal varrido, mas habitável; falta bom gosto, bom cheiro, bom senso; faltam excessos, ironicamente, excessos, que mantêm as loucuras inerentes à construção de um sujeito são.
E faltam pessoas dentro dessas pessoas, isso é grave - e é algo de que, confesso: tenho muito medo.
Estive segurando um sentimento imenso em meu bolso, toque instável e mão firme; a esperança inútil, boba, incoerente - e eu não o sei? - de mantê-lo seguro do mundo, seguro de mim mesma, dos outros, do outro, quase como a Bruna que há uns quinze ou dezesseis anos apareceu em frente à família pedindo por biscoitos - a boca já suja de farelos de chocolate. O meu não-dito me grita.
Esse esforço pra esconder o que eu sinto, a que me leva? A quem me leva?