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9.12.14

vinte e cinco

- Parece que os dias de hoje têm um peso diferente. Uma atmosfera áspera, ainda que incolor. E tátil, ainda que simbólica. A gente vai caminhando nas ruas entre corpos machucados, como em um campo de guerra sem sobreviventes. Só que são corpos eretos. Corpos que trabalham. Corpos que compram. Que matam a sede, a fome, fazem rituais próprios e conversam uns com os outros. As feridas vêm de custos emocionais, não-ditos, passados. São cascas. Só cascas. Talvez a ideia seja esbarrar com alguém que more em uma casca parecida com a tua: mera familiaridade.

- Não sei. O amor já morreu, de toda forma. A funcionalidade matou o amor. Lembra-se do cara que a presenteou no segundo encontro com um canivete?

- Bastante.

- É isto. A funcionalidade matou o amor. O amor não é para-quê, nem porquê. É para dois. Não se faz amor dentro de si. O amor só pode nascer naquele espaço entre sis. É um terceiro objeto: existe a pessoa, a outra pessoa e o que se constrói a partir das duas. A funcionalidade faz com que esse espaço simbólico não exista. O canivete matou o amor, porque não representava o espaço do amor, mas sim a projeção analítica de apenas um.

- Mas é certo que o amor morreu? Penso, ainda, que as cascas podem se tornar compatíveis. Momentos de vida parecidos, produtivos quando em diálogo.

- O amor morreu como você o conhecia. Você está em busca de algo que você, na verdade, desconhece. E por isso pode se tornar difícil de enxergar; identificar nuances em meio à disformidade. Você vai repensar o teu modelo de amor, umas boas vezes, até se convencer de que o modelo não existe. E aí vai deixar pra amar só quando o amor fizer sentido. O amor não é funcional, é espacial. 

- E o moço do canivete? Era amor?

- Talvez fosse. Só que não houve o espaço simbólico para que esse amor se alimentasse. Você estava interditada e não sabia. Pra onde cresce o amor quando só se pode ocupar um lado? Você fez do canivete um canivete funcional. Não deu tempo.

- Então eu matei o amor?

- Possivelmente. E vai matar algumas boas vezes até que o compreenda como ele é: o oco a ser preenchido.



Foto não-relacionada. :)


12.11.12

ao extraordinário

Bom moço, bom papo. Dessas esquinas da intimidade em que nascem as amizades, ele tirou um desabafo. Eu vasculhei, catei e tirei uma resposta. Quase que um sopro terapêutico em um sábado à noite - não resisto. Ele quis um beijo, beijei-lhe a testa. Já havíamos perdido as estribeiras e recuperado. Às vésperas dos meus 23 anos, talvez tenha eu aprendido a reconhecer o sentido real das experiências. Ele apareceu para que tivéssemos um momento de cumplicidade. Foi nada, mas foi algo. E assim, às avessas, servimos um ao outro como excelentes amigos.

Conversamos sobre ela. Emprestei-me por inteiro. Foram horas dos meus melhores conselhos. Ouvidos, colo, tudo aquilo. Tornou-se íntimo das minhas desgraças e dos meus afetos - desnudos, manifestos. Arrisco dizer que esse lampejo de amizade entre desconhecidos foi dos mais especiais que já presenciei. Veio por esses dias me contar que reatara seu namoro, comemoramos; ele sentiu meu contentamento sincero do outro lado do telefone. Agradeceu por ter me conhecido e, mais ainda, pelo desenrolar que dei às coisas: Ainda bem que você é jogo duro. Vez ou outra, mantemos contato. Trocamos alguns cuidados. Eu havia concedido, em fragmentos, o que há de mais precioso em mim: meu otimismo. Percebi que lhe serviria naquele momento. E foi, essencialmente, um acerto. Tenho verdadeira paixão por esses encontros que o acaso proporciona para além de verbo e saliva.

O sentimento não me é estranho - esse, da troca sentimental entre estranhos. Gosto muito. Fica aqui minha homenagem às sutilezas em que às vezes esbarramos, para pôr extra no ordinário da vida.



8.10.12

tesoura

- Corto ou deixo crescer?
- Qualquer, você fica bem dos dois jeitos. Corto ou deixo crescer?
- Corte, enquanto está no início. Enquanto pode. Enquanto é pouco. Deixe crescer não, que eu não dou pra tanto, o desapego é inerente, já o coloco aos pés da cama, do avesso, transtornado, minha vontade se esvai gota em gota, meu desejo é falho e muito, você vai me ouvir falando de outros caras, vai me ver desentendida, desinteressada, desaparecendo, até que simplesmente não vai me ver mais, e vai gastar um tempo procurando meu perfume nos pescoços, revirando memórias atrás de vestígios de um início do fim, mastigando, relutante, que sou daquelas de se deixar no pedestal pegando a poeira da vida.
- E o cabelo?
- Deixe crescer. Gosto como está.

22.3.12

faltante

High And Dry by Radiohead on Grooveshark

Ela dizia que podia ver a aura das pessoas quando semicerrava os olhos. Dizia que era uma prática de constatação física, e me deu uma explicação sobre energia e física quântica que me pareceu decorada de alguma revista ou edição do Fantástico. Ela dizia que chegou a mim porque focou bem em minha testa, “são anos de prática, não é pra qualquer um”; ela me focou a testa e soube que a minha energia era boa e bastante convidativa. Eu não sabia se ria ou concordava. A Júlia sempre foi de me roubar as palavras, e, em nossa linguagem peculiar, a Júlia só dizia – eu respondia com acenos e murmúrios. E aí ela dizia, os olhos apertados, franzidos, fuzilando-me o alto da cabeça:

- Sua aura tem um buraco. É faltante.

As tequilas chegavam de duas em duas. Duas pra Júlia. Uma Coca pra mim. Eu não bebia, que se eu bebesse, dizia, e isso meio que mexia no equilíbrio das coisas. Então ela dizia por mim. E dizia em mim, debruçando-se cambaleante sobre meu peito em uma intimidade que nunca foi minha, mas dos caras, das dezenas de caras que eu a vi beijar nos últimos anos, admirando-os com olhos etílicos e lentos de quem foca energia em testa ou sei lá qual era a lorota da vez nesses tempos. Seja qual fosse, funcionava. Os caras eram muitos. E eu nunca era os caras.

Nossa conversa caminhava em tropeços. Quando não falava sobre as bobagens da física quântica, falava sobre as bobagens da medicina. A Júlia gostava de folhear essas revistas científicas caras pra ter sempre algo a ser transmitido. Decorava e não comprava, sentindo-se malandra – roubava conhecimento. Daí ela balançava a cabeça de um jeito bastante pateta e sorria: “eu que te ensinei essa”. Eu gostava disso. Era das poucas coisas que a Júlia fazia das quais eu não conseguia sentir raiva.

O primeiro beijo com a Júlia foi tortuoso. Ela me empurrava com a força de seu corpo, como quem diz “desabo em você pois sei que você me segura”; uma mão que deixei, já desistente, sobre o balcão molhado de cerveja, e a outra segurando a cabeça pesada de Júlia contra a minha. Entre nós, um grito em meu peito. Afetos e desalentos dos anos que se passaram. O sorriso com que ela me assassinava todas as segundas na faculdade. O perfume de seus pulsos gesticulantes, nunca tão próximo às minhas narinas como nesse momento. E a música - mas que droga de música favorita, logo agora?, era essa, do Radiohead, que, pior: ela sabia que eu adorava. Um sorriso no meio do beijo, senti os cílios subirem pelas minhas bochechas:

- Pago pra ver você esquecer isso que está acontecendo.

Era a mesma Júlia de anos atrás. Embriagada e carente. Consciente de todo o efeito devastador que causava em mim. Mesma Júlia, só que mais perto.

A paixão, química e biologicamente falando, leva cerca de dois anos para se extinguir. Ela que me ensinou essa. Eu digo que levou um curso de graduação inteiro e bota mais tempo nisso. Pro inferno com os "dois anos".

A Júlia não sabe de nada.

20.7.11

conversinha sobre a dor passageira

Walking After You by Foo Fighters on Grooveshark


- Posso fazer um comentário?
- Pode.
- Eu nunca vi um olhar tão triste como o seu. Você precisa de ajuda?
- Poxa, obrigada.
- É sério, moça. Que olhos tristes. Expressivos demais. Talvez se você chorar, põe um pouco pra fora dessa tristeza. Chora um pouco. Os seus olhos estão de desabar o mundo inteiro junto. Cuidado com isso.
- Eu posso fechar os olhos, se estiver incomodando.
- Não, moça. Estou tocada pela sua tristeza. Não é pena, não, pena é feio. Mas me deu uma vontade enorme de compartilhar dessa sua tristeza. Como se eu fosse uma psicóloga.
- Engraçado, e a psicóloga sou eu.
- É sério, moça? Eu não sabia mesmo que dava, isso.
- Dava?
- É, tristeza.
- Como?
- Não sabia que psicólogo ficava triste.
- Quem me dera um diploma me separar dos meus problemas!
- Seus olhos sorriram agora, moça. Seus olhos são quase gente.
- Os olhos sorriem, mesmo.
- Mas você ainda está, né?
- O que?
- Triste.
- Bastante.
- Fica assim não, moça. Vai passar.

2010.