De repente porque caiu um meteoro na avenida principal e a gente não
Chegou a tempo da sessão de repente isso
Põe na minha conta a culpa de ontem somada a essa de agora
De repente porque choveu e meus guarda-chuvas são todos
Quebrados e está na cara
Que eu faço isso de propósito
De repente porque estive usando umas palavras pouco suaves e
Talvez tenha usado um rosto mais triste
No dia do enterro do meu avô
De repente foi a minha demora em terminar um sorvete em
Terminar uma frase em terminar uma respiração
De repente essa culpa nova debitou em minha conta porque
Eu não falei que o amava quando você me
Largou na avenida sem devolver minhas chaves e minha carteira
De repente e provavelmente foi o elogio que eu teimei em receber de uma amiga
E respondi que me sentia amada
De repente é o franzido do meu nariz que invoca o pior em você e
Não dá para tolerar coisa dessa
De repente são os meus acertos na hora que eu deveria estar
Perdendo a cabeça junto com você
De repente tudo isso é faísca nos campos minados em que já
Perdi pernas e braços
De repente amor se desama como
Sopro em dente-de-leão
Explosão intermitente
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7.11.16
14.10.16
amorfo
Eu tenho o eco da vida nos olhos e tenho
Um milhão de melodias
Que andam comigo em câmera lenta
Tenho em mim
A riqueza dos planetas
O formato do diamante eu tenho
E tenho a história dos monges eu
Tenho a vivência de poucos e tenho
Ouro na minha saliva
Você tem o oco que a gente
Preenche com a minha voz você
Tem o nós que eu criei com os meus
Calos de artista
Eu o amei amorfo
Pra compor sua história dentro da minha
Um milhão de melodias
Que andam comigo em câmera lenta
Tenho em mim
A riqueza dos planetas
O formato do diamante eu tenho
E tenho a história dos monges eu
Tenho a vivência de poucos e tenho
Ouro na minha saliva
Você tem o oco que a gente
Preenche com a minha voz você
Tem o nós que eu criei com os meus
Calos de artista
Eu o amei amorfo
Pra compor sua história dentro da minha
![]() |
| Ilustração por Fernando Cobelo. |
baú
Talvez o que mais doa em uma escala
Não-numerada
Seja um pouco do que eu senti hoje
Talvez o que eu sinta seja a evolução dos
Dedinhos nas portas
Da canela na quina
Talvez seja a acidez do estômago elevada à
Vergonha de estar nu no maracanã
Talvez tudo isso doa
Um pouco do que eu senti hoje
Não está para um tiro na perna e antes fosse
A dor parece
Uma descoberta de que você entendeu a vida toda errado
Um monólogo de um protagonista substituto sem
Carisma
Uma farpa no olho e ainda seria
Uma dor melhor do que a de hoje
[Passa]
Não-numerada
Seja um pouco do que eu senti hoje
Talvez o que eu sinta seja a evolução dos
Dedinhos nas portas
Da canela na quina
Talvez seja a acidez do estômago elevada à
Vergonha de estar nu no maracanã
Talvez tudo isso doa
Um pouco do que eu senti hoje
Não está para um tiro na perna e antes fosse
A dor parece
Uma descoberta de que você entendeu a vida toda errado
Um monólogo de um protagonista substituto sem
Carisma
Uma farpa no olho e ainda seria
Uma dor melhor do que a de hoje
[Passa]
dezenove
Hoje eu dormi pra esquerda e foi assim
Que uma pedra tocou na outra
Veio a lembrança e a gente não sabe muito bem
Como isso acontece mas
Vieram os dias que eu voltava
Com purpurina nas mãos tilintando moedas
Na fila da padaria junto a pessoas de vidas mais extensas
Amores bem vividos e cartões para bater na hora certa
De gente que trabalha aos domingos
Vinha bambeando em minhas botas desejando ter
Um corpo apenas para me apoiar um corpo de voz baixinha pra
Telefonar e saber se cheguei em casa bem e eu acordaria só
Pra dizer que sim, ensaiaria até mesmo um
Cheguei, meu bem
Pra que ele dormisse tranquilo com meu perfume entre os dedos
Hoje eu dormi desse jeito que evocou alguma coisa e
Foi assim que veio um frame daqueles dias
Que eu voltava pra casa na hora da missa dos meus
Vizinhos e tirava os sapatos ainda no asfalto eu
Não tinha esse discernimento eu nunca
Tive paz
Era tempo de ter muitos amigos, eu tinha
Era tempo de achar que um último amor era
Realmente o último
Era tempo de deixar minha mãe preocupada com os ônibus
Que eu pegava com as companhias que eu cismava que eram gente finíssima
Amizade duradoura desde o fim de semana retrasado
Eu dormi sem saber se fui feliz ou triste e realmente
Não saberia fazer essa conta mas despenquei
Como dormia de volta pra casa nos taxis
Com a tranquilidade e a melancolia de quem ainda tem
Três quartos de século pela frente
Eu só não tenho dezenove anos
1.8.16
terreno
Já tem mais de mês eu pulei esse muro estive
Com os joelhos ralados expostos
Com as unhas nas cascas como em tampinhas de
Refrigerante
Já tem mais de mês eu já esqueci qual
Mês eu voltei pra cair de joelhos no concreto
Deixar tecidos da minha pele naquele jardim dos mais
Férteis
Pra nascer de mim outras de mim que falam o meu indizível
Em folhas e galhos que crescem desgovernadamente além
Do meu tamanho
Já é mais de um mês e eu volto com todo o meu constrangimento
Pra podar as folhas que deixei secas raízes famintas e
Mudas
Com minhas cicatrizes já fechadas sem o menor jeito sem a menor fé
Mês depois volto para verificar as condições do solo e
Colher quase nada que cultivei nessa estação de
Poucas palavras
Já é outro mês e não vem uma chuva pra me molhar as bochechas uma
Perda de fôlego qualquer que me atravesse até se transformar em
Palavras embaixo da minha língua
Com a boca vazia mês vai mês vem retorno para enterrar
Páginas vazias
Já tem meses e eu não
Consigo
Sentir
--
Eu chamo de fazer uma limonada - escrever sobre a não-escrita. :)
Com os joelhos ralados expostos
Com as unhas nas cascas como em tampinhas de
Refrigerante
Já tem mais de mês eu já esqueci qual
Mês eu voltei pra cair de joelhos no concreto
Deixar tecidos da minha pele naquele jardim dos mais
Férteis
Pra nascer de mim outras de mim que falam o meu indizível
Em folhas e galhos que crescem desgovernadamente além
Do meu tamanho
Já é mais de um mês e eu volto com todo o meu constrangimento
Pra podar as folhas que deixei secas raízes famintas e
Mudas
Com minhas cicatrizes já fechadas sem o menor jeito sem a menor fé
Mês depois volto para verificar as condições do solo e
Colher quase nada que cultivei nessa estação de
Poucas palavras
Já é outro mês e não vem uma chuva pra me molhar as bochechas uma
Perda de fôlego qualquer que me atravesse até se transformar em
Palavras embaixo da minha língua
Com a boca vazia mês vai mês vem retorno para enterrar
Páginas vazias
Já tem meses e eu não
Consigo
Sentir
--
Eu chamo de fazer uma limonada - escrever sobre a não-escrita. :)
20.12.15
debate
A oposição era ela
Toda dela
Quando os amigos dele não compreendiam
Sua sensibilidade
Quando os carinhos dele esgotavam
Mês adentro
Quando ela apenas
Precisava
A oposição era ele
Só dele
Reclamava se ela descuidasse
No afeto
Se ela mudasse humor e ainda
O espírito
Se ele apenas
Precisasse
Preciso discutir
Precisamos
O que se deu na minha infância sua vida desmemórias
O que se tem nas dobradiças
Os erros as faltas as sobras
Os acertos
A fala
Cansa
Retrai
Descansa
Fica
Sei bem
A oposição tem amor de sobra
Toda dela
Quando os amigos dele não compreendiam
Sua sensibilidade
Quando os carinhos dele esgotavam
Mês adentro
Quando ela apenas
Precisava
A oposição era ele
Só dele
Reclamava se ela descuidasse
No afeto
Se ela mudasse humor e ainda
O espírito
Se ele apenas
Precisasse
Preciso discutir
Precisamos
O que se deu na minha infância sua vida desmemórias
O que se tem nas dobradiças
Os erros as faltas as sobras
Os acertos
A fala
Cansa
Retrai
Descansa
Fica
Sei bem
A oposição tem amor de sobra
13.9.15
sete a um
Quando estou só
Eu passo a pesar
Um milhão de toneladas
Quando estou comigo mesma sou
Leve e
Densa
Densa
Escombros de mim mesma
Que poluem vento
Quando lembro de nós dois
Corpos que se cruzaram em uma
Copa de ruas tumultuadas
Lembro
Sentir o extenso recomeço
Sentir o extenso recomeço
Que pontua os meus ciclos
Espécie de em-si-mesmência
Ou coisa parecida
Quase carrego
Em mim
A audácia de um coração vazio
Mas quase
Quase carrego
Em mim
A audácia de um coração vazio
Mas quase
poema solar
As meninas de dezembro
Não buscam o que encontram
Sabem do que falam
As meninas de dezembro não
São só
Sagitarianas
São, ainda, mulheres
De sagitário
O que é muito diferente e
Quase o contrário
Entendem até do que não
Conhecem
Sabichonas
E exageram nos temperos e nos
Desfechos
Porque uma vida inteira não
Nos basta
E uma vida inteira não
Nos tem
As meninas de dezembro
São más
E ainda por cima
São livres
Não buscam o que encontram
Sabem do que falam
As meninas de dezembro não
São só
Sagitarianas
São, ainda, mulheres
De sagitário
O que é muito diferente e
Quase o contrário
Entendem até do que não
Conhecem
Sabichonas
E exageram nos temperos e nos
Desfechos
Porque uma vida inteira não
Nos basta
E uma vida inteira não
Nos tem
As meninas de dezembro
São más
E ainda por cima
São livres
8.6.15
orgânico
Aquela fotografia que se foi, como era
Que alguém a encontre e guarde
Embaixo de um copo
Que alguém nos rabisque os dentes e olhos
Que ela possa tingir o humor
Ou amor
De algum outro casal
Aquele retrato que está em caçambas
Em escombros
Que o lixeiro o guarde e mostre
À esposa e filhos
Que possam eles mesmos pensar
Ou sentir
São tantos, pai
Os amores biodegradáveis
Aquele retrato que a gente guardava
Dentro de um livro que a gente
Não lia
Naquela estante que a gente
Não limpava
Fez o dia de alguém mais bonito
Fez um quebra-cabeça
De memórias
Junto às Ruffles e ao papel toalha
Manchado de sugo e óleo
Fez a gente sentir falta
Que caia na mão de Fridas, calos
Que caia na mão de Fernandos, pessoas
Que caia na mão de artistas ou quase
Pra ficarmos vivos em figura e forma
Em mente e ideia
Inspirando
Poeira
Que vire escultura, poema
Espetáculo de curta temporada
Que pare nas mãos certas
Se possível
Nas nossas
Para sabermos da angulação
De nossos sorrisos
Da precisão dos nossos
Corpos
De como éramos e como
Somos
Beleza itinerante
Em sacolas de lixo
Que alguém a encontre e guarde
Embaixo de um copo
Que alguém nos rabisque os dentes e olhos
Que ela possa tingir o humor
Ou amor
De algum outro casal
Aquele retrato que está em caçambas
Em escombros
Que o lixeiro o guarde e mostre
À esposa e filhos
Que possam eles mesmos pensar
Ou sentir
São tantos, pai
Os amores biodegradáveis
Aquele retrato que a gente guardava
Dentro de um livro que a gente
Não lia
Naquela estante que a gente
Não limpava
Fez o dia de alguém mais bonito
Fez um quebra-cabeça
De memórias
Junto às Ruffles e ao papel toalha
Manchado de sugo e óleo
Fez a gente sentir falta
Que caia na mão de Fridas, calos
Que caia na mão de Fernandos, pessoas
Que caia na mão de artistas ou quase
Pra ficarmos vivos em figura e forma
Em mente e ideia
Inspirando
Poeira
Que vire escultura, poema
Espetáculo de curta temporada
Que pare nas mãos certas
Se possível
Nas nossas
Para sabermos da angulação
De nossos sorrisos
Da precisão dos nossos
Corpos
De como éramos e como
Somos
Beleza itinerante
Em sacolas de lixo
19.5.15
jogo da memória
Os casais se repetem dois a dois
Três a três
Um mais um
Fazendo dois iguais aos
Que faziam antes
Os casais se desfazem e depois
Só remontam
Os pares
Fazem danças iguais
E amam o mesmo
Amor
Cansam o mesmo
E de novo amor
Dois a dois
Um por um
Dez iguais
Eu e tu e até
Ela e ele
Eu igual a ela e
Tu igual a ele
Tempos cíclicos
E ainda
Diferentes
Das vida que se cruzam
Pelas mesmas pontes
Formo pares
Meus cabelos e
os fios dela
Teus óculos e as
Pupilas dele
Mãos e cotovelos
Que diferem
Para nos lembrarmos em que
Tempo estamos
O afeto tem todo tipo de tempo
Tempo curto
Tempo gasto e
Tempo afeto
Insistências
Tempos outros
Vidas que insistem
E se cruzam
Sempre
Pelas mesmas pontes
Ensaios reprises refilmagens e
Os mesmos atores
Remontando cenas
Em pares trocados
Jogo da desmemória
Três a três
Um mais um
Fazendo dois iguais aos
Que faziam antes
Os casais se desfazem e depois
Só remontam
Os pares
Fazem danças iguais
E amam o mesmo
Amor
Cansam o mesmo
E de novo amor
Dois a dois
Um por um
Dez iguais
Eu e tu e até
Ela e ele
Eu igual a ela e
Tu igual a ele
Tempos cíclicos
E ainda
Diferentes
Das vida que se cruzam
Pelas mesmas pontes
Formo pares
Meus cabelos e
os fios dela
Teus óculos e as
Pupilas dele
Mãos e cotovelos
Que diferem
Para nos lembrarmos em que
Tempo estamos
O afeto tem todo tipo de tempo
Tempo curto
Tempo gasto e
Tempo afeto
Insistências
Tempos outros
Vidas que insistem
E se cruzam
Sempre
Pelas mesmas pontes
Ensaios reprises refilmagens e
Os mesmos atores
Remontando cenas
Em pares trocados
Jogo da desmemória
28.10.14
rumi
Vamos a um encontro
Pra eu saber de uma vez por todas
Teu signo e teu
Time
E agir como se isso fizesse
Todo o sentido
Saber tua fé
Teus sobrenomes
Como se isso abrisse
Passagem qualquer dentro de mim
Vamos sair num encontro
Devo saber de uma vez por todas
Com que mão pega garfos
Com que jeito bebe
Nos copos
Como se isso misturasse
Minhas lembranças e vivências
Como se só isso movesse
O que está decantado no fundo de mim
Vamos ao encontro
De cotovelos que se apoiam na mesa e
Mãos que apoiam as bochechas
Nos relatos de nossos filmes e referências
Músicas e historias de vida
E fingimos que é isso que importa
Quando assentimos com as cabeças
E sorrimos com os olhos
Sabendo enfim do enredo dos anos
Como se isso fizesse
Nosso ano mais feliz
Vamos a encontro
E que esse encontro aconteça
E aconteça onde e quando
Fizer
Algum
Sentido
O que me eu busco me busca também
--
What you seek is seeking you - O que você procura está procurando você
- Rumi
10.4.14
carta de perdão
Hoje vou perdoá-lo
Para assim perdê-lo
Soltá-lo
E devolvê-lo
Perdoar por ter me devolvido
A esses caras
Ter me deixado livre
Pra todos esses caras
Por não ter sido
Esses caras
Por ter me perdoado
Quando era pra sentir raiva
Por ter tocado meus ombros
Quando era pra tocar
Meu âmago
Quando era pra me procurar
Em meus escombros
E se confortar
Nos meus cantos
Quando era pra eu ser chão
E você teto
Mas hoje vou perdoá-lo
Para assim sabê-lo
Soltá-lo
E devolvê-lo
Perdoar por ter me devolvido
A sonhos crus
Sem rosto sem
Cheiro
Perdoá-lo por ter me tornado
Meu avesso
Por ter me tornado
Possível
--
Nota: Primeira poesia em anos. Com calma, que eu sou de prosa.
Para assim perdê-lo
Soltá-lo
E devolvê-lo
Perdoar por ter me devolvido
A esses caras
Ter me deixado livre
Pra todos esses caras
Por não ter sido
Esses caras
Por ter me perdoado
Quando era pra sentir raiva
Por ter tocado meus ombros
Quando era pra tocar
Meu âmago
Quando era pra me procurar
Em meus escombros
E se confortar
Nos meus cantos
Quando era pra eu ser chão
E você teto
Mas hoje vou perdoá-lo
Para assim sabê-lo
Soltá-lo
E devolvê-lo
Perdoar por ter me devolvido
A sonhos crus
Sem rosto sem
Cheiro
Perdoá-lo por ter me tornado
Meu avesso
Por ter me tornado
Possível
--
Nota: Primeira poesia em anos. Com calma, que eu sou de prosa.
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