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21.6.16

palanque

Quando pequena
Em nossas viagens de carro
Caetano soltava absurdos
Pelos autofalantes
"Ele é quem quer
Ele é o homem
Eu sou apenas uma mulher"

Minhas irmãs cresceram
Feministas
Eu cresci fêmea
Entendi pelos Caetanos
Que eu era
Apenas

Vieram os roxos
Engasgados
Vieram as loucuras
Induzidas
Vieram os moços, e muitos
Vieram as feministas

Eu me vi
Caetana
Ao dizer das mulheres loucas
Ao dizer das mulheres frágeis
Ao dizer das mulheres
Eu apenas me ouvi
Calada

Fizeram pouco de mim
De minha história
Extraíram a cientista inventora artista
Fizeram de mim a namorada
Em uma morte horrível
Morri fulana
Mulher de alguém

Duvidei de meus pés pequenos
De fêmea
Pra pisar pequeno no mundo
Pra não acordar os gigantes

Mulher existe miudinho

13.9.15

poema solar

As meninas de dezembro
Não buscam o que encontram
Sabem do que falam
As meninas de dezembro não
São só
Sagitarianas
São, ainda, mulheres
De sagitário
O que é muito diferente e
Quase o contrário
Entendem até do que não
Conhecem
Sabichonas
E exageram nos temperos e nos
Desfechos
Porque uma vida inteira não
Nos basta
E uma vida inteira não
Nos tem

As meninas de dezembro
São más
E ainda por cima
São livres


28.10.14

rumi

Vamos a um encontro
Pra eu saber de uma vez por todas
Teu signo e teu
Time
E agir como se isso fizesse
Todo o sentido
Saber tua fé
Teus sobrenomes
Como se isso abrisse
Passagem qualquer dentro de mim

Vamos sair num encontro
Devo saber de uma vez por todas
Com que mão pega garfos
Com que jeito bebe
Nos copos
Como se isso misturasse
Minhas lembranças e vivências
Como se só isso movesse
O que está decantado no fundo de mim

Vamos ao encontro
De cotovelos que se apoiam na mesa e
Mãos que apoiam as bochechas
Nos relatos de nossos filmes e referências
Músicas e historias de vida
E fingimos que é isso que importa
Quando assentimos com as cabeças
E sorrimos com os olhos
Sabendo enfim do enredo dos anos
Como se isso fizesse
Nosso ano mais feliz

Vamos a encontro
E que esse encontro aconteça
E aconteça onde e quando
Fizer
Algum
Sentido

O que me eu busco me busca também


--
What you seek is seeking you - O que você procura está procurando você
- Rumi



21.6.14

girl talk

Amadas, eu descobri uma coisa. Na verdade, descobri várias. Essas epifanias geralmente me aparecem em momentos em que algo não vai bem - tenho essa espécie de mecanismo interno que me faz extrair sentidos das experiências, por piores que elas sejam. Além disso, por minha formação – sou psicóloga -, sou muito observadora com as minúcias dos afetos e das relações humanas. Hoje, faço questão de me voltar ao universo das problemáticas femininas. Tenho conhecido mulheres incríveis, independentes, atraentes, inteligentes – e dolorosamente traumatizadas por sucessivas frustrações amorosas. Ninguém pode dizer que é justo. Esbarrar no vazio do outro dói, minhas queridas. Por isso, resolvi vasculhar no meu arsenal. Dividir meu aprendizado. Pode gerar conforto e identificação – desse lado, aqui, também. Eis o meu pequeno e grosseiro apanhado de lições extraídas na última década:

1- O ‘amor da sua vida’ é sempre o atual
Temos a ânsia de marcar a existência dos outros. É muito comum ver no discurso das pessoas, sobretudo as mais jovens, a ideia de que a relação com fulano foi insuperável, e que ele não encontrará nada melhor depois disso. Existem pessoas que marcam mais do que outras – mas não espere que sua bandeira permaneça fincada, invicta, por muito tempo. Amor maior existe. Isso pode ser sua maior esperança ou seu pior pesadelo. Aceite que amores maiores virão – para você e para ele.

2- Sintonia é uma junção de solidões
Bacana, bonito, bem resolvido – nada disso irá realmente importar se ele não ceder espaço para você em sua vida. A esse espaço, dou o nome de solidão, que é a condição estrutural humana; uma espécie de vazio que se traduz em necessidade de colo e parceria, que esquecemos embaixo de camadas e camadas de experiências ruins e indisposição afetiva. Para se envolver, é preciso mostrar certa vulnerabilidade. Se o rapaz divide solidão com você, e permite que você divida a sua com ele, algo realmente interessante e íntimo pode surgir disso. Fique atenta.

3- Medo e hábito se confundem com amor
Lembro-me que em alguns términos que vivi, naqueles primeiros dias em que o estômago fica embrulhado, eu sentia certa inveja das amigas solteiras – elas pareciam isentas da possibilidade de sentir desgosto. Pareciam leves, confortáveis naquele período gostoso em que já não há mágoa passada e nem a ansiedade do próximo cara. Pareciam bem - não tem como se machucar estando no banco dos reservas. Quando você está dentro de uma relação, em campo, é difícil sair. É comum que só meses depois do término você realmente perceba que estava insuportável viver naquele par. O hábito nos cega – e nos dificulta de reavaliar e tomar a decisão certa. Quem tem medo de dar tempo está mais do que certo – é no “dar tempo” que a pessoa se lembra de que estar sozinho é possível, viável e bastante prazeroso. Como em um episódio de Friends que Chandler diz a Richard, ex-namorado de Monica: “You made my girlfriend think!”. E, se pensar é perigoso, é porque a relação está pautada apenas no afetivo, que é transitório – e nada realmente bom pode sair disso.

4- Saiba o jogo que você quer jogar
   Para cada jogo, regras e objetivos diferentes. Saiba seu objetivo e tenha foco, para encontrar jogadores que queiram o mesmo que você. Faça um teste: jogue totó com uma bola de futebol e veja a merda que dá. Não cabe, não é mesmo? É isso que acontece quando você não banca seu desejo e entra em uma partida de um jogo que não é o seu. Como atingir seu objetivo?

5- Você precisa se melhorar - mesmo se tiver feito tudo certo
Use as suas experiências a seu favor. Mesmo que a "culpa" do fracasso da relação recaia em maior parte sobre ele, encontre algo que você poderia ter feito diferente e se engaje para melhorar em seu próximo relacionamento. Cresça a partir das novas oportunidades e novos amores. Você só tem a ganhar ao adotar essa postura. De verdade.




5.3.14

aviso: esse é um texto leve

Conheço uma pessoa que, a goles emotivos, cita sua metáfora favorita, o copo de uísque entre os dedos: a vida é um trem.
E nesse trem, sempre em movimento, entram dois tipos de passageiros: os que se sentam ao seu lado e vão até a estação final e os que descem antes.

Eu, usuária compulsiva de metáforas, uma , complemento em sobriedade: esse trem vai aonde você quiser - mas não dá para escolher quem vai entrar. Pode ser que venha assaltante, gente que te tire tudo, que passe esbarrando, que esmague, fale alto, ensurdeça, que tente mudar sua direção ou lhe faça esticar as pernas, gente que perfume ou azede o ambiente. Rostos que marquem mais, outros menos; certamente, poucos são ao final do percurso. E que bom que são poucos. E que bom que ficam. E que bom que outros não ficam; os bons precisam se sentar, andam cansados de muitos trens. Baldeações.

Já havia avisado: esse é um texto leve. Esse é um momento leve. Vagaroso. Não há pressa. Há chão.

10.6.13

psicanálise (em gotas)


'Há certa graça na repetitividade, nos clichês incansáveis que temos em nossos bolsos e que a todos podem servir -  o que nos move não é a cenoura, frente ao focinho do burro, o que nos move está atrás, a busca é pelo desejo e o desejo é pela falta, essa sim nos empurra, nos move, nos objetiva, nos encrenca.'


18.2.13

#3


“Do meu riso, seu remorso. Você se desculpou por ter tolido meu humor tantas outras vezes, apático, intransigente; redimiu-se por demorar a perceber esse humor tal como o que era - alicerce do que você sentia. Talvez houvesse mesmo muita vida naqueles olhos que me acompanhavam onda à frente, onda atrás; vida que eu não paguei pra ver, meus trocados já haviam se esgotado de outrora, quando eu apostava em você e na gente quase que todo o instante, aposta manca, duvidosa, azarada. Foi de aposta irracional que vivemos por tempos e tempos, a gente teve apego, tolerância, cisma, quem é que diz que a gente não teve? Pra vestir das fantasias um do outro a gente se diminuía e se esticava. Rasgava e recompunha. Não deu; a gente morreu na praia. E saiu vivo – o que é ainda pior.”



--
Nota: difícil manejar essa época bonita da minha vida com as desgraças que eu curto escrever. Sai quase na-da!
Achei o brilho e perdi a graça.

17.12.12

"o momento presente é inevitável"

Tem algo meu, área das sobrancelhas, que me entrega pesado, principalmente nos bons humores. Perguntam se estou bêbada - o copo de coca-cola entre as mãos. Perguntam se aconteceu algo, se estou ganhando bem. Se tem alguém novo na minha vida, pelos risinhos muitos, pela leveza com que tenho pisado no mundo. Mas nunca me perguntaram o que eu descobri. Não seria essa a pergunta mais cabível? Que sabedoria é essa, quem me deu? De onde vem isso que algumas pessoas parecem simplesmente saber no sorriso?

Aconteceu. Os o quês e os comos não tem porquê nessas linhas. Eu percebi o propósito único da minha vida. Os sentidos são muitos e transitórios - ainda sei dos meus planos, dos meus desejos, ainda sei o que não quero e também o que mais preciso, e sei também que tudo isso ainda há de dar inúmeras reviravoltas e me deixar tonta, pra então não saber mais coisa alguma. Mas o propósito, diferente do sentido, é um só, é algo para todo segundo, uma regra única de vida, e o meu é apenas o de estar confortável no agora, pousada no presente, sem impaciências - um instante de cada vez.

"O momento presente é inevitável". Inevitável. Pensa-se o amanhã, pensa-se o ontem, estando no hoje. Estou acontecendo no hoje. Então pra quê? Engraçado: escolhi uma profissão que me obriga a pendular entre passado e futuro todo o tempo, mas agora vejo que, em minha essência, eu sempre fui alguém do presente. Eu tenho um prazer inenarrável em estar presente no presente. Estarei apenas aqui, com estes segundos, este, em que esse ou este verbete é lido - aqui, no agora. Esse lugar me pertence.

 

4.4.12

programação



 Eu quero passar a madrugada falando de amor. Insistir que Lacan sacou o desejo humano há décadas e que ainda tem gente cientifizando os afetos quase que de teimosia. Eu quero descobrir uma entrelinha nossa que me ruborize o rosto. Quero constrangimento, novidade, estranheza. Também quero intimidade, simbiose e frases suas que abracem as minhas. Vou beber um pouco mais do que o previsto e dançar até no intervalo entre uma música e outra. Vou me sentar com você em frente à janela, mal ver seu rosto na meia luz, já saber que você está sorrindo. Daí a gente janta o jantar que deu errado. Ama do jeito certo. Dorme vestindo suor. Quero isso, mas quero pra todos os dias, como o filme da Coppola que não sai mais da programação e sempre vem pra me arrancar sorriso, que audácia, como se fosse pela primeira vez...

8.1.12

whatever works




Whatever love you can get and give, whatever happiness you can filch or provide, every temporary measure of grace, whatever works.

9.11.11

fazer das tripas coração

Não Existe Amor em SP by Criolo on Grooveshark

Vamos desistir do que claramente se quer? Vamos acolher o luto que vem pela frente ao finalmente parar de refutá-lo? Vamos buscar outra rota quando nenhuma dessas outras rotas parecem possuir atrativos? Vamos - o que mais há para se fazer se não o fazer da sábia desistência, do não-fazer? Eu vou, não, você vai: eu só fico.

Tenho clara consciência do que quis para mim, não, do que quero, ainda, e eu não vou vestir meu sorriso no dia de hoje, não me cabe, só me pesa. Se possível, vou passar o dia em casa, vou me deitar no seu lado da cama, escutar uma daquelas suas músicas favoritas que eu sempre coloquei como se fossem nossas, no meu delírio a gente era assim, meio conjunto o tempo todo, e vou me amparar mais um pouquinho, não pretendo telefonar aos amigos, todo mundo já sabe do que se sucede entre eu e você, é chover no molhado, a gente foi até insistente demais na cisma de se servir um pro outro. Nosso problema é o molde de afeto, minha peça de quebra-cabeça é exatamente como a sua, e justamente por isso impassível de ser encaixada uma na outra.


Deixar pra lá é uma prática que me exige demais. Faço, mas faço com dor no peito, pressão nas têmporas, borrão nos olhos. Deixar você pra lá nunca esteve nos meus planos. Pra onde eu devo ir agora?


Ariel: What? What are you thinking?

Andrew: Nothing. Only that our whole lives might
have been different if only I had acted.



2011.

31.10.11

versinhos dos meus 15 anos

Boo (Album Version) by Macy Gray on Grooveshark


Coisas que resgatei. De muito antes de qualquer desilusão, de antes da acidez que a vida traz. Valsinhas. No tempo da maldade, acho que eu não tinha nem nascido.


Toda hora chega a hora
Estou por ora no agora
Enquanto não chega a Hora
Vou-me embora mundo afora


Minha hora está chegando
Minha vida se acabando
E eu aqui contando as horas.


*
Minha saudade
De tão teimosa
Tão impaciente
De tão
Materializou-se por completo
Decidiu tornar-se gente

Não te preocupes mais, meu bem
Com os nossos assuntos pendentes
Minha saudade conversa baixinho
Sentada na tua frente


2005.