Batata frita pra dois. Refrigerante em refil. Sal pra ele, mostarda pra ela.
Sentei-me no restaurante ao lado do casal. As mesas eram tão próximas que era quase impossível não mergulhar nas histórias de vida, viagens, debates, na sordidez dos detalhes, no golinho do milkshake, fecha-a-conta, beijinhos de despedida. Todos perto, como em uma grande mesa de natal, parentes distantes e vizinhos cujos nomes não lembramos.
O casal era agora meu ouvido direito. Meu pé direito, o furinho na manga direita do casaco. Colei mais perto do que gostaria.
Tentei pensar no curso que acabara de fazer, na programação do dia, mas me vi imersa naquele casal por pelo menos duas horas.
Ela falava, ele ouvia.
Ela contava histórias longas, ele assentia.
Com sorte, ela punha um "né?" ao fim da frase - dava tempo de ele murmurar e sorrir com os olhos.
O hambúrguer era dele, o vegetariano era dela.
Ele era dela, também. Cada milímetro de seu ser dedicado àquela existência; devoto ao relato de sua ida à copiadora, ou à casa da avó, ou do seriado que começara a assistir sozinha.
Brincaram de sério, perderam juntos, rodadas a fio. Desempataram quando ela testou uma cara esticada de "plástica". Ele riu bastante alto. Pude ouvir sua voz, acho que pela primeira vez, já em minhas últimas batatas fritas.
Ela pagou a conta. Dinheiro do estágio. Ele estalou um beijo em sua testa. Passos ruidosos e braços longos, de ombro a ombro, naquele andar conjunto de quatro pernas.
Fiquei órfã naquele instante. Espreguicei o corpo. Em um espaço estranhamente amplo, pude me perguntar se era ela a estrela do casal. Ou se era, ao menos e por que não, o dia dela de brilhar naquela constelação de dois.
O amor é esse presenciar, silencioso, do nascimento de uma estrela.
A admiração e o sentimento de sorte.
A constatação de estar rico por dentro, abastado, invencível.
Digeri. Paguei e fui embora a pé, desnorteada. Comi essa poeira.
No céu de quem a gente brilha?
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21.6.16
15.2.14
desmentira
Conclusão: nunca me faltou amor.
Eu seria muito injusta com a vida se ignorasse seus aprendizados, seu sumo. Eu amei até demais. E recebi amor de variadas nuances. Estou farta de amar errado, de amar certo um alguém errado, de comer amores que não desejo; estou farta e - ainda - insatisfeita. Voraz. Mas é amor, ainda se é errado e torto. Nasce amor, acaba amor, e eu recolho meus pedaços do chão, a curva da minha lombar me grita, me cansa, já chega, quem é que ajuda a me recompor, a reunir estes cacos? E as feridas nas pontas dos dedos, que nunca dei tempo de cicatrizar? O que faço com elas?
Doem-me mais os amores incompatíveis. Não sei onde guardar meus amores incompatíveis. Insistimos e insistimos. Esse, principalmente, o meu e seu, que só funciona quando cada um vive sua vida. Eu quis que sua vida cruzasse a minha, fechasse a minha, viesse assim, pela contramão, fizesse um fuzuê, parasse a cidade. Não deu. E agora, onde é que eu guardo isso? No silêncio? Na troca de olhares com novos namorados? No esquecimento dos anos?
Eu não entendia esse conceito, amor-da-vida. Eu subvertia: dizia a meus amigos que o amor da sua vida é sempre o atual. Será? Será que aquele rapaz dos seus vinte anos não foi sua última e única chance de completude? Será que não é da maturidade aceitar que nada maior do que aquilo virá? Aquela garota que faz das outras apenas garotas ecoa por trás dos novos retratos e viagens e intimidades, das novas parcerias? Tem passado escondido no seu presente?
Em conformidade com a vida, caminho só. Em conformidade com a vida, entrego. Desminto a mim mesma, rendida: já amei sim. E, em conformidade com a vida, vou amar mais.
Eu não sei a hora de parar.
[Até porque ela não existe]
26.1.14
sobre vãos e pontes (e pontes sobre vãos)
A maior de todas as saudades é a que sinto enquanto você ainda está na minha frente.
É vontade de existir você em todos os poros. De ter você em todos os meus cantos e esquinas. De colar com você. Há muito 'nósdois' num espaço que não é só de distância física, entre corpos, mas também imaginária; esse 'nósdois' que a gente mesmo criou, e do qual nos nutrimos, pra aonde vai, onde é que fica, em quem se esconde, como se guarda, quando não há atrito entre bocas, entre os dedos das mãos? Existe um vão que a gente não supera nem deitados com as pernas enroscadas, e é a esse vão que eu dei o nome de saudade. Não saudade dos dicionários - a nossa saudade. Eu preciso de você mais do que dá para saciar. Mais dentro do que perto. Mais fora do que dentro. Na minha frente, na minha cara, dividindo do meu hálito. Ainda assim, sinto. Porque saudade é essa divisão entre peles que faz de 'nósdois' dois nós desatáveis - que permanecem atados pela mais bonita das teimosias.
[E ponte final]
20.5.13
amor-instante
'Foi quando percebi você comovido?
Foi aí que eu, de acordo, enterneci? Foi em alguma coisa que alguém
disse? Fração de quê ou de quem? Foram passos que eu dei, dentes que
escovei, vogais da minha voz? Foi essa manhã? Onde? E quem presenciou –
será que percebeu? Foi a bossa nova nos ouvidos, o pouso daquele avião? Foi em um esbarrão ou entre garfadas? Foi de olhos
fechados?
3.11.12
folie à deux
'Eu havia reclamado, insensata, do vácuo que se vive entre amores. Ousei dizer que esses espaços de tempo entre desencanto e
reencanto eram lacunas de morte dentro de uma vida. Tropecei feio no
comentário. Vejo agora: estava acomodada naquela trincheira. Escondida e adorando.
Água, sombra e uma paz paradisíaca. O reamor veio em minha vida nas horas mais
oportunas, mas dessa vez, sinto, veio pra me apavorar. Puxou pelos braços,
pelos cabelos, pelas vísceras. Eu não quis. Não agora. O desejo era livre, errante, como a dona; não tinha
direcionamento, e, por isso, não tinha limites, o que me fazia sentir imensa e
invencível. Eu sabia, em alguma esquina de mim mesma, que era uma questão de
tempo até aquele desejo encontrar um novo objeto para se fixar. O perigo dessa
iminência, dessa vulnerabilidade nos meus afetos me excitava e me fazia sorrir
com cada encontro, desencontro, despedida. Deixei vagar. Perdeu-se de mim. Voltou antes que eu chamasse. Teimoso.'
25.7.12
epifania
"Foi nessa cozinha que eu tive o primeiro baque: ver você comendo com as mãos. Talvez esse tenha sido o momento em que eu me desapaixonei de primeira viagem, primeira porque depois dessa houve muitas outras viagens; a gente se apaixonava e desapaixonava semanalmente em epifanias próprias e muito complexas. Eu tinha essa questão com a comida: o barulho que a sua boca fazia quando você mastigava, o molho já seco no canto do sorriso, os dedos sujos de massa – o que foi que houve em sua criação para continuar comendo assim? Pelo amor de Deus.
O corredor, esse corredor, essas paredes. Quando se atrasava, saía como um touro, corredor adentro, corredor afora, voltando para buscar isso ou aquilo, em resmungos. Vez ou outra a gente acabava se encontrando, os corpos se encontravam sem jeito e às vezes até doía; já sem pressa, você ficava, e a gente bolava então uma desculpa qualquer pra você faltar aquele trabalho que você odiava, mais um dia, só mais um dia, eu juro, só mais uma semana. Claro que você permaneceu no emprego pra mais de ano. Você era assim, teimoso, e eu odiava quando você se descrevia como persistente. Sem eufemismos pra alguém que te conhece gripado, broxa, sem dinheiro e sem banho, por favor. A gente teve só o cru um do outro e essa intimidade foi o que tanto nos afastou - ironia violenta.
Nas chaves da nossa porta, uma última epifania: a vontade que me dá de já deixar a porta aberta, cada vez que você sai, contando quantos minutos leva dessa vez pra você voltar. A gente não sabe nem brigar, a gente não dá pra casal, que piada; você sobe o lance de degraus com pés pesados, xinga, esquece que estou ali, e no dia seguinte somos só constrangimento, favores que nem foram pedidos, somos gentileza.
Acho que a maior epifania que se pode vivenciar é perceber que se está verdadeiramente ligado a alguém, invariável e inevitavelmente, até que a vida os separe."
14.5.12
Reivindico
Pela lei do atestado,
Da licença médica
Ao que se arrasta, passional,
Partido,
Frustrado,
Receoso,
Recuado,
Ressentido,
Desistente,
Corno,
Sem condições físicas de deixar o coração em casa.
Pelo amor da pátria: a lei não pensou o amor?
Da licença médica
Ao que se arrasta, passional,
Partido,
Frustrado,
Receoso,
Recuado,
Ressentido,
Desistente,
Corno,
Sem condições físicas de deixar o coração em casa.
Pelo amor da pátria: a lei não pensou o amor?
11.4.12
campo de guerra
Na discussão que ela começou. No desdém dele, traços mínimos de feição, que só ela reconhece. No almoço requentado que ele come no trabalho. Nos telefonemas que ela não escutou porque estava no banho. No trânsito em que se tem paz porque se está sozinho. No barulho das chaves dele invadindo a fala do ator da novela; a novela dela. No comentário dele, carregado de sarcasmo. No carinho que ele espera. No carinho que ela nega. Na página que ela quis terminar de ler e no assunto que ela quis terminar de conversar. No que ele não quis dela. Na luz que se apaga, no silêncio que pesa. No cheiro que tem a cama depois da reconciliação. Nele, nela.
O amor é lindo.
15.2.12
dar a cara a tapa
Vem, que eu já fiz o café, já penteei o cabelo, já arrumei o coração e lugar não te falta. Vem, que já abri as cortinas, varri o chão e lavei a cara. Vem, mas bate antes. E me espera abrir, que eu demoro. Pode vir e espera. Vem com o tapa que eu venho com a cara.
Uma amiga me dizia, pra gostar é preciso ficar vulnerável. Como é difícil estar vulnerável de novo. Como é difícil perceber que não se está vulnerável, que se é.
Eu nasci pro reamor.
2011.
8.1.12
whatever works
Whatever love you can get and give, whatever happiness you can filch or provide, every temporary measure of grace, whatever works.
12.10.11
minha definição de saudade
(Saudade-gostosa-de-se-sentir não é saudade. Tomem nota)
2011.
20.7.11
conversinha sobre a dor passageira
- Posso fazer um comentário?
- Pode.
- Eu nunca vi um olhar tão triste como o seu. Você precisa de ajuda?
- Poxa, obrigada.
- É sério, moça. Que olhos tristes. Expressivos demais. Talvez se você chorar, põe um pouco pra fora dessa tristeza. Chora um pouco. Os seus olhos estão de desabar o mundo inteiro junto. Cuidado com isso.
- Eu posso fechar os olhos, se estiver incomodando.
- Não, moça. Estou tocada pela sua tristeza. Não é pena, não, pena é feio. Mas me deu uma vontade enorme de compartilhar dessa sua tristeza. Como se eu fosse uma psicóloga.
- Engraçado, e a psicóloga sou eu.
- É sério, moça? Eu não sabia mesmo que dava, isso.
- Dava?
- É, tristeza.
- Como?
- Não sabia que psicólogo ficava triste.
- Quem me dera um diploma me separar dos meus problemas!
- Seus olhos sorriram agora, moça. Seus olhos são quase gente.
- Os olhos sorriem, mesmo.
- Mas você ainda está, né?
- O que?
- Triste.
- Bastante.
- Fica assim não, moça. Vai passar.
- Pode.
- Eu nunca vi um olhar tão triste como o seu. Você precisa de ajuda?
- Poxa, obrigada.
- É sério, moça. Que olhos tristes. Expressivos demais. Talvez se você chorar, põe um pouco pra fora dessa tristeza. Chora um pouco. Os seus olhos estão de desabar o mundo inteiro junto. Cuidado com isso.
- Eu posso fechar os olhos, se estiver incomodando.
- Não, moça. Estou tocada pela sua tristeza. Não é pena, não, pena é feio. Mas me deu uma vontade enorme de compartilhar dessa sua tristeza. Como se eu fosse uma psicóloga.
- Engraçado, e a psicóloga sou eu.
- É sério, moça? Eu não sabia mesmo que dava, isso.
- Dava?
- É, tristeza.
- Como?
- Não sabia que psicólogo ficava triste.
- Quem me dera um diploma me separar dos meus problemas!
- Seus olhos sorriram agora, moça. Seus olhos são quase gente.
- Os olhos sorriem, mesmo.
- Mas você ainda está, né?
- O que?
- Triste.
- Bastante.
- Fica assim não, moça. Vai passar.
2010.
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