De repente porque caiu um meteoro na avenida principal e a gente não
Chegou a tempo da sessão de repente isso
Põe na minha conta a culpa de ontem somada a essa de agora
De repente porque choveu e meus guarda-chuvas são todos
Quebrados e está na cara
Que eu faço isso de propósito
De repente porque estive usando umas palavras pouco suaves e
Talvez tenha usado um rosto mais triste
No dia do enterro do meu avô
De repente foi a minha demora em terminar um sorvete em
Terminar uma frase em terminar uma respiração
De repente essa culpa nova debitou em minha conta porque
Eu não falei que o amava quando você me
Largou na avenida sem devolver minhas chaves e minha carteira
De repente e provavelmente foi o elogio que eu teimei em receber de uma amiga
E respondi que me sentia amada
De repente é o franzido do meu nariz que invoca o pior em você e
Não dá para tolerar coisa dessa
De repente são os meus acertos na hora que eu deveria estar
Perdendo a cabeça junto com você
De repente tudo isso é faísca nos campos minados em que já
Perdi pernas e braços
De repente amor se desama como
Sopro em dente-de-leão
Explosão intermitente
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7.11.16
14.10.16
amorfo
Eu tenho o eco da vida nos olhos e tenho
Um milhão de melodias
Que andam comigo em câmera lenta
Tenho em mim
A riqueza dos planetas
O formato do diamante eu tenho
E tenho a história dos monges eu
Tenho a vivência de poucos e tenho
Ouro na minha saliva
Você tem o oco que a gente
Preenche com a minha voz você
Tem o nós que eu criei com os meus
Calos de artista
Eu o amei amorfo
Pra compor sua história dentro da minha
Um milhão de melodias
Que andam comigo em câmera lenta
Tenho em mim
A riqueza dos planetas
O formato do diamante eu tenho
E tenho a história dos monges eu
Tenho a vivência de poucos e tenho
Ouro na minha saliva
Você tem o oco que a gente
Preenche com a minha voz você
Tem o nós que eu criei com os meus
Calos de artista
Eu o amei amorfo
Pra compor sua história dentro da minha
![]() |
| Ilustração por Fernando Cobelo. |
21.6.16
poeira de estrela
Batata frita pra dois. Refrigerante em refil. Sal pra ele, mostarda pra ela.
Sentei-me no restaurante ao lado do casal. As mesas eram tão próximas que era quase impossível não mergulhar nas histórias de vida, viagens, debates, na sordidez dos detalhes, no golinho do milkshake, fecha-a-conta, beijinhos de despedida. Todos perto, como em uma grande mesa de natal, parentes distantes e vizinhos cujos nomes não lembramos.
O casal era agora meu ouvido direito. Meu pé direito, o furinho na manga direita do casaco. Colei mais perto do que gostaria.
Tentei pensar no curso que acabara de fazer, na programação do dia, mas me vi imersa naquele casal por pelo menos duas horas.
Ela falava, ele ouvia.
Ela contava histórias longas, ele assentia.
Com sorte, ela punha um "né?" ao fim da frase - dava tempo de ele murmurar e sorrir com os olhos.
O hambúrguer era dele, o vegetariano era dela.
Ele era dela, também. Cada milímetro de seu ser dedicado àquela existência; devoto ao relato de sua ida à copiadora, ou à casa da avó, ou do seriado que começara a assistir sozinha.
Brincaram de sério, perderam juntos, rodadas a fio. Desempataram quando ela testou uma cara esticada de "plástica". Ele riu bastante alto. Pude ouvir sua voz, acho que pela primeira vez, já em minhas últimas batatas fritas.
Ela pagou a conta. Dinheiro do estágio. Ele estalou um beijo em sua testa. Passos ruidosos e braços longos, de ombro a ombro, naquele andar conjunto de quatro pernas.
Fiquei órfã naquele instante. Espreguicei o corpo. Em um espaço estranhamente amplo, pude me perguntar se era ela a estrela do casal. Ou se era, ao menos e por que não, o dia dela de brilhar naquela constelação de dois.
O amor é esse presenciar, silencioso, do nascimento de uma estrela.
A admiração e o sentimento de sorte.
A constatação de estar rico por dentro, abastado, invencível.
Digeri. Paguei e fui embora a pé, desnorteada. Comi essa poeira.
No céu de quem a gente brilha?
Sentei-me no restaurante ao lado do casal. As mesas eram tão próximas que era quase impossível não mergulhar nas histórias de vida, viagens, debates, na sordidez dos detalhes, no golinho do milkshake, fecha-a-conta, beijinhos de despedida. Todos perto, como em uma grande mesa de natal, parentes distantes e vizinhos cujos nomes não lembramos.
O casal era agora meu ouvido direito. Meu pé direito, o furinho na manga direita do casaco. Colei mais perto do que gostaria.
Tentei pensar no curso que acabara de fazer, na programação do dia, mas me vi imersa naquele casal por pelo menos duas horas.
Ela falava, ele ouvia.
Ela contava histórias longas, ele assentia.
Com sorte, ela punha um "né?" ao fim da frase - dava tempo de ele murmurar e sorrir com os olhos.
O hambúrguer era dele, o vegetariano era dela.
Ele era dela, também. Cada milímetro de seu ser dedicado àquela existência; devoto ao relato de sua ida à copiadora, ou à casa da avó, ou do seriado que começara a assistir sozinha.
Brincaram de sério, perderam juntos, rodadas a fio. Desempataram quando ela testou uma cara esticada de "plástica". Ele riu bastante alto. Pude ouvir sua voz, acho que pela primeira vez, já em minhas últimas batatas fritas.
Ela pagou a conta. Dinheiro do estágio. Ele estalou um beijo em sua testa. Passos ruidosos e braços longos, de ombro a ombro, naquele andar conjunto de quatro pernas.
Fiquei órfã naquele instante. Espreguicei o corpo. Em um espaço estranhamente amplo, pude me perguntar se era ela a estrela do casal. Ou se era, ao menos e por que não, o dia dela de brilhar naquela constelação de dois.
O amor é esse presenciar, silencioso, do nascimento de uma estrela.
A admiração e o sentimento de sorte.
A constatação de estar rico por dentro, abastado, invencível.
Digeri. Paguei e fui embora a pé, desnorteada. Comi essa poeira.
No céu de quem a gente brilha?
20.12.15
debate
A oposição era ela
Toda dela
Quando os amigos dele não compreendiam
Sua sensibilidade
Quando os carinhos dele esgotavam
Mês adentro
Quando ela apenas
Precisava
A oposição era ele
Só dele
Reclamava se ela descuidasse
No afeto
Se ela mudasse humor e ainda
O espírito
Se ele apenas
Precisasse
Preciso discutir
Precisamos
O que se deu na minha infância sua vida desmemórias
O que se tem nas dobradiças
Os erros as faltas as sobras
Os acertos
A fala
Cansa
Retrai
Descansa
Fica
Sei bem
A oposição tem amor de sobra
Toda dela
Quando os amigos dele não compreendiam
Sua sensibilidade
Quando os carinhos dele esgotavam
Mês adentro
Quando ela apenas
Precisava
A oposição era ele
Só dele
Reclamava se ela descuidasse
No afeto
Se ela mudasse humor e ainda
O espírito
Se ele apenas
Precisasse
Preciso discutir
Precisamos
O que se deu na minha infância sua vida desmemórias
O que se tem nas dobradiças
Os erros as faltas as sobras
Os acertos
A fala
Cansa
Retrai
Descansa
Fica
Sei bem
A oposição tem amor de sobra
8.6.15
orgânico
Aquela fotografia que se foi, como era
Que alguém a encontre e guarde
Embaixo de um copo
Que alguém nos rabisque os dentes e olhos
Que ela possa tingir o humor
Ou amor
De algum outro casal
Aquele retrato que está em caçambas
Em escombros
Que o lixeiro o guarde e mostre
À esposa e filhos
Que possam eles mesmos pensar
Ou sentir
São tantos, pai
Os amores biodegradáveis
Aquele retrato que a gente guardava
Dentro de um livro que a gente
Não lia
Naquela estante que a gente
Não limpava
Fez o dia de alguém mais bonito
Fez um quebra-cabeça
De memórias
Junto às Ruffles e ao papel toalha
Manchado de sugo e óleo
Fez a gente sentir falta
Que caia na mão de Fridas, calos
Que caia na mão de Fernandos, pessoas
Que caia na mão de artistas ou quase
Pra ficarmos vivos em figura e forma
Em mente e ideia
Inspirando
Poeira
Que vire escultura, poema
Espetáculo de curta temporada
Que pare nas mãos certas
Se possível
Nas nossas
Para sabermos da angulação
De nossos sorrisos
Da precisão dos nossos
Corpos
De como éramos e como
Somos
Beleza itinerante
Em sacolas de lixo
Que alguém a encontre e guarde
Embaixo de um copo
Que alguém nos rabisque os dentes e olhos
Que ela possa tingir o humor
Ou amor
De algum outro casal
Aquele retrato que está em caçambas
Em escombros
Que o lixeiro o guarde e mostre
À esposa e filhos
Que possam eles mesmos pensar
Ou sentir
São tantos, pai
Os amores biodegradáveis
Aquele retrato que a gente guardava
Dentro de um livro que a gente
Não lia
Naquela estante que a gente
Não limpava
Fez o dia de alguém mais bonito
Fez um quebra-cabeça
De memórias
Junto às Ruffles e ao papel toalha
Manchado de sugo e óleo
Fez a gente sentir falta
Que caia na mão de Fridas, calos
Que caia na mão de Fernandos, pessoas
Que caia na mão de artistas ou quase
Pra ficarmos vivos em figura e forma
Em mente e ideia
Inspirando
Poeira
Que vire escultura, poema
Espetáculo de curta temporada
Que pare nas mãos certas
Se possível
Nas nossas
Para sabermos da angulação
De nossos sorrisos
Da precisão dos nossos
Corpos
De como éramos e como
Somos
Beleza itinerante
Em sacolas de lixo
9.12.14
vinte e cinco
- Parece que os dias de hoje têm um peso diferente. Uma atmosfera áspera, ainda que incolor. E tátil, ainda que simbólica. A gente vai caminhando nas ruas entre corpos machucados, como em um campo de guerra sem sobreviventes. Só que são corpos eretos. Corpos que trabalham. Corpos que compram. Que matam a sede, a fome, fazem rituais próprios e conversam uns com os outros. As feridas vêm de custos emocionais, não-ditos, passados. São cascas. Só cascas. Talvez a ideia seja esbarrar com alguém que more em uma casca parecida com a tua: mera familiaridade.
- Não sei. O amor já morreu, de toda forma. A funcionalidade matou o amor. Lembra-se do cara que a presenteou no segundo encontro com um canivete?
- Bastante.
- É isto. A funcionalidade matou o amor. O amor não é para-quê, nem porquê. É para dois. Não se faz amor dentro de si. O amor só pode nascer naquele espaço entre sis. É um terceiro objeto: existe a pessoa, a outra pessoa e o que se constrói a partir das duas. A funcionalidade faz com que esse espaço simbólico não exista. O canivete matou o amor, porque não representava o espaço do amor, mas sim a projeção analítica de apenas um.
- Mas é certo que o amor morreu? Penso, ainda, que as cascas podem se tornar compatíveis. Momentos de vida parecidos, produtivos quando em diálogo.
- O amor morreu como você o conhecia. Você está em busca de algo que você, na verdade, desconhece. E por isso pode se tornar difícil de enxergar; identificar nuances em meio à disformidade. Você vai repensar o teu modelo de amor, umas boas vezes, até se convencer de que o modelo não existe. E aí vai deixar pra amar só quando o amor fizer sentido. O amor não é funcional, é espacial.
- E o moço do canivete? Era amor?
- Talvez fosse. Só que não houve o espaço simbólico para que esse amor se alimentasse. Você estava interditada e não sabia. Pra onde cresce o amor quando só se pode ocupar um lado? Você fez do canivete um canivete funcional. Não deu tempo.
- Então eu matei o amor?
- Possivelmente. E vai matar algumas boas vezes até que o compreenda como ele é: o oco a ser preenchido.
Foto não-relacionada. :)
5.10.14
verde-grama
A Ana tinha um namoradinho bacana.
Era aquele que esperava por ela no corredor da faculdade, dois copos de café nas mãos.
E que tinha sempre um beijinho pra escapar da boca e pousar na testa dela.
Era aquele dos anos que se arrastam como promessa.
E que aparecia nas fotos com sorriso besta, de gente entregue (e só quem já foi entregue um dia sabe sorrir assim).
Era um, dentre muitos namoradinhos da Ana. Mas é claro que ele não sabia.
Ele só era.
Ele só era.
Era o amor dela nas redes sociais.
E o moço promissor dos almoços de domingo.
E o moço dela nos presentes, nos carinhos e na conchinha.
Ela não era a moça dele.
Ela não era a moça dele.
Mas tudo bem.
A Ana tinha esse namoradinho bacana.
A Ana tem, ainda.
A Ana tem, ainda.
E ele está feliz da vida.
Todos estamos.
Todos estamos.
Bonito par, esse da Ana.
21.6.14
girl talk
Amadas, eu descobri uma coisa. Na verdade, descobri várias. Essas
epifanias geralmente me aparecem em momentos em que algo não vai bem - tenho
essa espécie de mecanismo interno que me faz extrair sentidos das experiências,
por piores que elas sejam. Além disso, por minha formação – sou psicóloga -, sou
muito observadora com as minúcias dos afetos e das relações humanas. Hoje, faço
questão de me voltar ao universo das problemáticas femininas. Tenho
conhecido mulheres incríveis, independentes, atraentes, inteligentes – e dolorosamente
traumatizadas por sucessivas frustrações amorosas. Ninguém pode dizer que é
justo. Esbarrar no vazio do outro dói, minhas queridas. Por isso, resolvi
vasculhar no meu arsenal. Dividir meu aprendizado. Pode gerar conforto e
identificação – desse lado, aqui,
também. Eis o meu pequeno e grosseiro apanhado de lições extraídas na última
década:
1- O ‘amor da sua vida’ é sempre o atual
Temos a ânsia de marcar a existência dos
outros. É muito comum ver no discurso das pessoas, sobretudo as mais jovens, a
ideia de que a relação com fulano foi insuperável,
e que ele não encontrará nada melhor depois disso. Existem pessoas que
marcam mais do que outras – mas não espere que sua bandeira permaneça fincada, invicta,
por muito tempo. Amor maior existe. Isso pode ser sua maior esperança ou seu
pior pesadelo. Aceite que amores maiores virão – para você e para ele.
2- Sintonia é uma junção de solidões
Bacana, bonito, bem resolvido – nada disso
irá realmente importar se ele não ceder espaço para você em sua vida. A esse
espaço, dou o nome de solidão, que é
a condição estrutural humana; uma espécie de vazio que se traduz em necessidade
de colo e parceria, que esquecemos embaixo de camadas e camadas de experiências
ruins e indisposição afetiva. Para se envolver, é preciso mostrar certa vulnerabilidade. Se o rapaz divide
solidão com você, e permite que você divida a sua com ele, algo realmente
interessante e íntimo pode surgir disso. Fique atenta.
3- Medo
e hábito se confundem com amor
Lembro-me
que em alguns términos que vivi, naqueles primeiros dias em que o estômago fica
embrulhado, eu sentia certa inveja das amigas solteiras – elas pareciam isentas
da possibilidade de sentir desgosto. Pareciam leves, confortáveis naquele
período gostoso em que já não há mágoa passada e nem a ansiedade do próximo cara. Pareciam bem - não tem como se machucar estando no banco dos reservas. Quando
você está dentro de uma relação, em campo, é difícil sair. É comum que só meses depois do
término você realmente perceba que estava insuportável viver naquele par. O
hábito nos cega – e nos dificulta de reavaliar e tomar a decisão certa. Quem
tem medo de dar tempo está mais do que certo – é no “dar tempo” que a pessoa se
lembra de que estar sozinho é possível, viável e bastante prazeroso. Como em um
episódio de Friends que Chandler diz a Richard, ex-namorado de Monica: “You made my girlfriend think!”. E, se
pensar é perigoso, é porque a relação está pautada apenas no afetivo, que é
transitório – e nada realmente bom pode sair disso.
4- Saiba o jogo que você quer jogar
Para
cada jogo, regras e objetivos diferentes. Saiba seu objetivo
e tenha foco, para encontrar jogadores que
queiram o mesmo que você. Faça um teste: jogue totó com uma bola de futebol e veja a merda que dá. Não cabe, não é mesmo? É isso que acontece quando você não banca seu desejo e entra em uma partida de um jogo que não é o seu. Como atingir seu objetivo?
5- Você precisa se melhorar - mesmo se tiver feito tudo certo
Use as suas experiências a seu favor. Mesmo que a "culpa" do fracasso da relação recaia em maior parte sobre ele, encontre algo que você poderia ter feito diferente e se engaje para melhorar em seu próximo relacionamento. Cresça a partir das novas oportunidades e novos amores. Você só tem a ganhar ao adotar essa postura. De verdade.
18.2.13
#3
“Do meu riso, seu remorso. Você se desculpou por ter tolido meu
humor tantas outras vezes, apático, intransigente; redimiu-se por demorar a perceber
esse humor tal como o que era - alicerce do que você sentia. Talvez
houvesse mesmo muita vida naqueles olhos que me acompanhavam onda à frente,
onda atrás; vida que eu não paguei pra ver, meus trocados já haviam se esgotado
de outrora, quando eu apostava em você e na gente quase que todo o instante, aposta
manca, duvidosa, azarada. Foi de aposta irracional que vivemos por tempos e
tempos, a gente teve apego, tolerância, cisma,
quem é que diz que a gente não teve? Pra vestir das fantasias um do outro a
gente se diminuía e se esticava. Rasgava e recompunha. Não deu; a gente morreu
na praia. E saiu vivo – o que é ainda pior.”
--
Nota: difícil manejar essa época bonita da minha vida com as desgraças que eu curto escrever. Sai quase na-da!
Achei o brilho e perdi a graça.
3.1.13
lar
Pessoas de amores unilaterais. Pessoas que esperam, passivas, para que seus destinos se refaçam sozinhos. Pessoas que acham que amor vem de fora. Pessoas que acham amor e jogam fora. Pessoas que traem seus parceiros – bonitos, amáveis, parceiros. Pessoas que traem a si mesmas. Pessoas rasas, geladas, mal passadas. Pessoas cruas. Pessoas que paralisam, doem. Pessoas que reclamam. Gente feia, fosca, estreita – não me serve dos joelhos para cima. Não recuo; certo esforço, até as entendo. É só que o feio não me agrada os olhos.
Gosto quando a gente entra na alma de alguém pelas pupilas. Quando aquele abraço sem sentido dá vontade de chorar. Quando palavras sem muita precisão dão força e lucidez. Prefiro pessoas que não são quem, são onde - lugar bonito de se estar.
A todas essas pessoas-lugares, por me deixarem morar arredia, espaçosa e sem pagar aluguel algum.
Oi, 2013! :)
8.10.12
tesoura
- Corto ou deixo crescer?
- Qualquer, você fica bem dos dois jeitos. Corto ou deixo crescer?
- Corte, enquanto está no início. Enquanto pode. Enquanto é pouco. Deixe crescer não, que eu não dou pra tanto, o desapego é inerente, já o coloco aos pés da cama, do avesso, transtornado, minha vontade se esvai gota em gota, meu desejo é falho e muito, você vai me ouvir falando de outros caras, vai me ver desentendida, desinteressada, desaparecendo, até que simplesmente não vai me ver mais, e vai gastar um tempo procurando meu perfume nos pescoços, revirando memórias atrás de vestígios de um início do fim, mastigando, relutante, que sou daquelas de se deixar no pedestal pegando a poeira da vida.
- E o cabelo?
- Deixe crescer. Gosto como está.
25.7.12
epifania
"Foi nessa cozinha que eu tive o primeiro baque: ver você comendo com as mãos. Talvez esse tenha sido o momento em que eu me desapaixonei de primeira viagem, primeira porque depois dessa houve muitas outras viagens; a gente se apaixonava e desapaixonava semanalmente em epifanias próprias e muito complexas. Eu tinha essa questão com a comida: o barulho que a sua boca fazia quando você mastigava, o molho já seco no canto do sorriso, os dedos sujos de massa – o que foi que houve em sua criação para continuar comendo assim? Pelo amor de Deus.
O corredor, esse corredor, essas paredes. Quando se atrasava, saía como um touro, corredor adentro, corredor afora, voltando para buscar isso ou aquilo, em resmungos. Vez ou outra a gente acabava se encontrando, os corpos se encontravam sem jeito e às vezes até doía; já sem pressa, você ficava, e a gente bolava então uma desculpa qualquer pra você faltar aquele trabalho que você odiava, mais um dia, só mais um dia, eu juro, só mais uma semana. Claro que você permaneceu no emprego pra mais de ano. Você era assim, teimoso, e eu odiava quando você se descrevia como persistente. Sem eufemismos pra alguém que te conhece gripado, broxa, sem dinheiro e sem banho, por favor. A gente teve só o cru um do outro e essa intimidade foi o que tanto nos afastou - ironia violenta.
Nas chaves da nossa porta, uma última epifania: a vontade que me dá de já deixar a porta aberta, cada vez que você sai, contando quantos minutos leva dessa vez pra você voltar. A gente não sabe nem brigar, a gente não dá pra casal, que piada; você sobe o lance de degraus com pés pesados, xinga, esquece que estou ali, e no dia seguinte somos só constrangimento, favores que nem foram pedidos, somos gentileza.
Acho que a maior epifania que se pode vivenciar é perceber que se está verdadeiramente ligado a alguém, invariável e inevitavelmente, até que a vida os separe."
11.4.12
campo de guerra
Na discussão que ela começou. No desdém dele, traços mínimos de feição, que só ela reconhece. No almoço requentado que ele come no trabalho. Nos telefonemas que ela não escutou porque estava no banho. No trânsito em que se tem paz porque se está sozinho. No barulho das chaves dele invadindo a fala do ator da novela; a novela dela. No comentário dele, carregado de sarcasmo. No carinho que ele espera. No carinho que ela nega. Na página que ela quis terminar de ler e no assunto que ela quis terminar de conversar. No que ele não quis dela. Na luz que se apaga, no silêncio que pesa. No cheiro que tem a cama depois da reconciliação. Nele, nela.
O amor é lindo.
20.7.11
às que buscam - e esbarram com as faltas
Às vezes falta gesto amplo, palavra sutil, falta carisma, calor, carência; às vezes falta feromônio ou bondade - e quando falta feromônio e bondade, aí, amigo, eu quase não lhe cedo tempo para que me ganhe aos miúdos, em parcelas -, às vezes falta um time certo, uma família certa, uma certa estrutura que me instigue a um encaixe, a um colo; falta consistência ideológica, um palmo a mais, idade a mais, um pau duro; falta até mesmo um resto no coração injuriado, que lhe dê a esperança quase que infantil de se permitir à felicidade, resto feio, mal varrido, mas habitável; falta bom gosto, bom cheiro, bom senso; faltam excessos, ironicamente, excessos, que mantêm as loucuras inerentes à construção de um sujeito são.
E faltam pessoas dentro dessas pessoas, isso é grave - e é algo de que, confesso: tenho muito medo.
2010.
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