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13.9.15

sete a um

Quando estou só
Eu passo a pesar
Um milhão de toneladas
Quando estou comigo mesma sou
Leve e
Densa
Escombros de mim mesma
Que poluem vento

Quando lembro de nós dois
Corpos que se cruzaram em uma
Copa de ruas tumultuadas
Lembro
Sentir o extenso recomeço
Que pontua os meus ciclos
Espécie de em-si-mesmência
Ou coisa parecida

Quase carrego
Em mim
A audácia de um coração vazio

Mas quase



8.6.15

orgânico

Aquela fotografia que se foi, como era
Que alguém a encontre e guarde
Embaixo de um copo
Que alguém nos rabisque os dentes e olhos
Que ela possa tingir o humor
Ou amor
De algum outro casal

Aquele retrato que está em caçambas
Em escombros
Que o lixeiro o guarde e mostre
À esposa e filhos
Que possam eles mesmos pensar
Ou sentir
São tantos, pai
Os amores biodegradáveis

Aquele retrato que a gente guardava
Dentro de um livro que a gente
Não lia
Naquela estante que a gente
Não limpava
Fez o dia de alguém mais bonito
Fez um quebra-cabeça
De memórias
Junto às Ruffles e ao papel toalha
Manchado de sugo e óleo
Fez a gente sentir falta

Que caia na mão de Fridas, calos
Que caia na mão de Fernandos, pessoas
Que caia na mão de artistas ou quase
Pra ficarmos vivos em figura e forma
Em mente e ideia
Inspirando
Poeira

Que vire escultura, poema
Espetáculo de curta temporada
Que pare nas mãos certas
Se possível
Nas nossas
Para sabermos da angulação
De nossos sorrisos
Da precisão dos nossos
Corpos
De como éramos e como
Somos

Beleza itinerante
Em sacolas de lixo





9.12.14

vinte e cinco

- Parece que os dias de hoje têm um peso diferente. Uma atmosfera áspera, ainda que incolor. E tátil, ainda que simbólica. A gente vai caminhando nas ruas entre corpos machucados, como em um campo de guerra sem sobreviventes. Só que são corpos eretos. Corpos que trabalham. Corpos que compram. Que matam a sede, a fome, fazem rituais próprios e conversam uns com os outros. As feridas vêm de custos emocionais, não-ditos, passados. São cascas. Só cascas. Talvez a ideia seja esbarrar com alguém que more em uma casca parecida com a tua: mera familiaridade.

- Não sei. O amor já morreu, de toda forma. A funcionalidade matou o amor. Lembra-se do cara que a presenteou no segundo encontro com um canivete?

- Bastante.

- É isto. A funcionalidade matou o amor. O amor não é para-quê, nem porquê. É para dois. Não se faz amor dentro de si. O amor só pode nascer naquele espaço entre sis. É um terceiro objeto: existe a pessoa, a outra pessoa e o que se constrói a partir das duas. A funcionalidade faz com que esse espaço simbólico não exista. O canivete matou o amor, porque não representava o espaço do amor, mas sim a projeção analítica de apenas um.

- Mas é certo que o amor morreu? Penso, ainda, que as cascas podem se tornar compatíveis. Momentos de vida parecidos, produtivos quando em diálogo.

- O amor morreu como você o conhecia. Você está em busca de algo que você, na verdade, desconhece. E por isso pode se tornar difícil de enxergar; identificar nuances em meio à disformidade. Você vai repensar o teu modelo de amor, umas boas vezes, até se convencer de que o modelo não existe. E aí vai deixar pra amar só quando o amor fizer sentido. O amor não é funcional, é espacial. 

- E o moço do canivete? Era amor?

- Talvez fosse. Só que não houve o espaço simbólico para que esse amor se alimentasse. Você estava interditada e não sabia. Pra onde cresce o amor quando só se pode ocupar um lado? Você fez do canivete um canivete funcional. Não deu tempo.

- Então eu matei o amor?

- Possivelmente. E vai matar algumas boas vezes até que o compreenda como ele é: o oco a ser preenchido.



Foto não-relacionada. :)


19.12.13

ninildes e o silêncio

Olha que coisa incrível: hoje me lembrei do Ninildes. E da Ninildes.
E pensei que, se consegui ter esquecido, é porque eu estava vivendo em outro lugar de mim. Lugar mais calmo, de menos palavras e de um silêncio sublime.
Não que a vida estivesse perfeita, não estava; acho apenas que encontrei outros caminhos de escape. Ou vivi caminhos inefáveis - inexpressáveis apesar de toda sua expressão.
Isso é bonito de ver.
Trecho do meu ano, em imagens, já que estou dando folga às palavras.