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18.12.12

#2

'Doem fibras, core, lacunas de sua alma que ele mesmo desconhecia; saudade é um conceito pouco. Sentiu falta até mesmo dos momentos em que ela se punha à sua frente, reclamando no seu rosto, estridente aos ouvidos, injusta, incoerente. Ele passou dias trancafiado em seu apartamento, pedindo comida cara, insossa, se houvesse fome, e assistindo às porcarias da televisão. Ouviu aquele recado repetidas vezes. Pranteou, enlouquecido. Percebeu que ela estava, mesmo, conformada com a situação. Estava bem, e estar bem se sobrepõe a todo o resto.'

27.11.12

apenas mais uma sobre aquele fenômeno

'Ela largou as botas sujas sobre a mesa da cozinha. Fumou-lhe o último cigarro do maço, quase que de sacanagem. Sentada na sua varanda, confidenciou. Algo precioso. Pediu desculpas pela bebedeira e se acabou de rir, em soluços. Você estava meio elétrico, nem reparou que passou um segundo ou dois apalpando suas próprias nádegas, tentando pôr as mãos em um bolso que não existia. Você gostava dela, talvez não houvesse amor algum, mas você gostava da maneira como ela o desafiava, era como se você tivesse que conquistar cada unidade de sentimento dentro dela, como se existissem unidades numéricas para medir o desvelo, a libido, os afetos em geral. Desconversou um pouco, pediu a ela que ficasse. Segurou-a pelos braços e beijou-lhe o canto do sorriso. Antes de se deitar em sua cama, ela tomou um banho demorado. Você a achou mais bonita de rosto lavado, sem todos aquelas cores indevidas, desordenadas. Cansado, você cochilou no sofá-cama da sala. Deviam ser quase cinco quando despertou e percebeu que ela dormia ao seu lado. Você tentou não se mexer, mas ela murmurou algo que você daria a própria carcaça para ter entendido. Comoveu-se. Pensou, por ora, que ela poderia ser tão sozinha no mundo quanto você.

Virou para o lado e dormiu, dormiu até tarde, faltou o trabalho naquele dia. Era uma segunda-feira. Famintos, passaram a tarde combinando restos da sua despensa. Vocês conversaram, compraram cigarros na padaria de baixo, debateram, reclamaram, partilharam de um mesmo humor. Parecia verão, e ela própria possuía dois sóis, um em cada olho, que pareciam acendê-la de dentro pra fora, alimentá-la. Você não havia percebido isso nos últimos anos. Quando ela ainda lhe era rude, inexpressiva, intangente, uma estranha, você olhava para o seu rosto quase se esquivando, pois parecia que era o mau humor dela que fazia chover e cair o mundo. Naquela época, vocês conversavam em desníveis, em frequências diferentes, impacientes, monólogas. Você nunca achou que iria um dia se pôr mendigando seu afeto, suas vontades, suas migalhas e possibilidades - os dedos dela em seu pescoço, decisivos, sufocando-o a outra direção.'
 


8.10.12

tesoura

- Corto ou deixo crescer?
- Qualquer, você fica bem dos dois jeitos. Corto ou deixo crescer?
- Corte, enquanto está no início. Enquanto pode. Enquanto é pouco. Deixe crescer não, que eu não dou pra tanto, o desapego é inerente, já o coloco aos pés da cama, do avesso, transtornado, minha vontade se esvai gota em gota, meu desejo é falho e muito, você vai me ouvir falando de outros caras, vai me ver desentendida, desinteressada, desaparecendo, até que simplesmente não vai me ver mais, e vai gastar um tempo procurando meu perfume nos pescoços, revirando memórias atrás de vestígios de um início do fim, mastigando, relutante, que sou daquelas de se deixar no pedestal pegando a poeira da vida.
- E o cabelo?
- Deixe crescer. Gosto como está.

22.3.12

faltante

High And Dry by Radiohead on Grooveshark

Ela dizia que podia ver a aura das pessoas quando semicerrava os olhos. Dizia que era uma prática de constatação física, e me deu uma explicação sobre energia e física quântica que me pareceu decorada de alguma revista ou edição do Fantástico. Ela dizia que chegou a mim porque focou bem em minha testa, “são anos de prática, não é pra qualquer um”; ela me focou a testa e soube que a minha energia era boa e bastante convidativa. Eu não sabia se ria ou concordava. A Júlia sempre foi de me roubar as palavras, e, em nossa linguagem peculiar, a Júlia só dizia – eu respondia com acenos e murmúrios. E aí ela dizia, os olhos apertados, franzidos, fuzilando-me o alto da cabeça:

- Sua aura tem um buraco. É faltante.

As tequilas chegavam de duas em duas. Duas pra Júlia. Uma Coca pra mim. Eu não bebia, que se eu bebesse, dizia, e isso meio que mexia no equilíbrio das coisas. Então ela dizia por mim. E dizia em mim, debruçando-se cambaleante sobre meu peito em uma intimidade que nunca foi minha, mas dos caras, das dezenas de caras que eu a vi beijar nos últimos anos, admirando-os com olhos etílicos e lentos de quem foca energia em testa ou sei lá qual era a lorota da vez nesses tempos. Seja qual fosse, funcionava. Os caras eram muitos. E eu nunca era os caras.

Nossa conversa caminhava em tropeços. Quando não falava sobre as bobagens da física quântica, falava sobre as bobagens da medicina. A Júlia gostava de folhear essas revistas científicas caras pra ter sempre algo a ser transmitido. Decorava e não comprava, sentindo-se malandra – roubava conhecimento. Daí ela balançava a cabeça de um jeito bastante pateta e sorria: “eu que te ensinei essa”. Eu gostava disso. Era das poucas coisas que a Júlia fazia das quais eu não conseguia sentir raiva.

O primeiro beijo com a Júlia foi tortuoso. Ela me empurrava com a força de seu corpo, como quem diz “desabo em você pois sei que você me segura”; uma mão que deixei, já desistente, sobre o balcão molhado de cerveja, e a outra segurando a cabeça pesada de Júlia contra a minha. Entre nós, um grito em meu peito. Afetos e desalentos dos anos que se passaram. O sorriso com que ela me assassinava todas as segundas na faculdade. O perfume de seus pulsos gesticulantes, nunca tão próximo às minhas narinas como nesse momento. E a música - mas que droga de música favorita, logo agora?, era essa, do Radiohead, que, pior: ela sabia que eu adorava. Um sorriso no meio do beijo, senti os cílios subirem pelas minhas bochechas:

- Pago pra ver você esquecer isso que está acontecendo.

Era a mesma Júlia de anos atrás. Embriagada e carente. Consciente de todo o efeito devastador que causava em mim. Mesma Júlia, só que mais perto.

A paixão, química e biologicamente falando, leva cerca de dois anos para se extinguir. Ela que me ensinou essa. Eu digo que levou um curso de graduação inteiro e bota mais tempo nisso. Pro inferno com os "dois anos".

A Júlia não sabe de nada.

9.11.11

fazer das tripas coração

Não Existe Amor em SP by Criolo on Grooveshark

Vamos desistir do que claramente se quer? Vamos acolher o luto que vem pela frente ao finalmente parar de refutá-lo? Vamos buscar outra rota quando nenhuma dessas outras rotas parecem possuir atrativos? Vamos - o que mais há para se fazer se não o fazer da sábia desistência, do não-fazer? Eu vou, não, você vai: eu só fico.

Tenho clara consciência do que quis para mim, não, do que quero, ainda, e eu não vou vestir meu sorriso no dia de hoje, não me cabe, só me pesa. Se possível, vou passar o dia em casa, vou me deitar no seu lado da cama, escutar uma daquelas suas músicas favoritas que eu sempre coloquei como se fossem nossas, no meu delírio a gente era assim, meio conjunto o tempo todo, e vou me amparar mais um pouquinho, não pretendo telefonar aos amigos, todo mundo já sabe do que se sucede entre eu e você, é chover no molhado, a gente foi até insistente demais na cisma de se servir um pro outro. Nosso problema é o molde de afeto, minha peça de quebra-cabeça é exatamente como a sua, e justamente por isso impassível de ser encaixada uma na outra.


Deixar pra lá é uma prática que me exige demais. Faço, mas faço com dor no peito, pressão nas têmporas, borrão nos olhos. Deixar você pra lá nunca esteve nos meus planos. Pra onde eu devo ir agora?


Ariel: What? What are you thinking?

Andrew: Nothing. Only that our whole lives might
have been different if only I had acted.



2011.

23.10.11

do não-dito

Lost Cause by Beck on Grooveshark


Se eu freasse meu carro junto à calçada. Se eu apenas buzinasse e gritasse seu nome. Se eu alguma-coisa-qualquer-coisa fizesse, talvez não acordasse hoje com você me ocupando o pensamento. Mas não. Que não seria somente o seu rosto que se voltaria para mim ao meu chamado – você estava acompanhada.

Passei atordoado pelos dois, sentindo a garganta se estreitar. Mantive-me atento ao retrovisor: você ria com a cabeça para trás, andava trocando um pouco as pernas, estava visivelmente embriagada, mas em um contentamento muito sincero. Roubou um beijinho no pescoço do cara, próximo à orelha, e eu quase pude sentir um eco da sua risada no meu próprio ouvido, já em outra esquina, já longe, já perdendo um pouco o propósito de aonde eu ia e a que ia. Perdendo. A palavra perder está recorrente por aqui.

Não sei em que ponto a gente se perdeu um do outro. Acho que são as tais coisas, dizem, que não são pra ser.'

2011.