Já tem mais de mês eu pulei esse muro estive
Com os joelhos ralados expostos
Com as unhas nas cascas como em tampinhas de
Refrigerante
Já tem mais de mês eu já esqueci qual
Mês eu voltei pra cair de joelhos no concreto
Deixar tecidos da minha pele naquele jardim dos mais
Férteis
Pra nascer de mim outras de mim que falam o meu indizível
Em folhas e galhos que crescem desgovernadamente além
Do meu tamanho
Já é mais de um mês e eu volto com todo o meu constrangimento
Pra podar as folhas que deixei secas raízes famintas e
Mudas
Com minhas cicatrizes já fechadas sem o menor jeito sem a menor fé
Mês depois volto para verificar as condições do solo e
Colher quase nada que cultivei nessa estação de
Poucas palavras
Já é outro mês e não vem uma chuva pra me molhar as bochechas uma
Perda de fôlego qualquer que me atravesse até se transformar em
Palavras embaixo da minha língua
Com a boca vazia mês vai mês vem retorno para enterrar
Páginas vazias
Já tem meses e eu não
Consigo
Sentir
--
Eu chamo de fazer uma limonada - escrever sobre a não-escrita. :)
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1.8.16
18.2.13
#3
“Do meu riso, seu remorso. Você se desculpou por ter tolido meu
humor tantas outras vezes, apático, intransigente; redimiu-se por demorar a perceber
esse humor tal como o que era - alicerce do que você sentia. Talvez
houvesse mesmo muita vida naqueles olhos que me acompanhavam onda à frente,
onda atrás; vida que eu não paguei pra ver, meus trocados já haviam se esgotado
de outrora, quando eu apostava em você e na gente quase que todo o instante, aposta
manca, duvidosa, azarada. Foi de aposta irracional que vivemos por tempos e
tempos, a gente teve apego, tolerância, cisma,
quem é que diz que a gente não teve? Pra vestir das fantasias um do outro a
gente se diminuía e se esticava. Rasgava e recompunha. Não deu; a gente morreu
na praia. E saiu vivo – o que é ainda pior.”
--
Nota: difícil manejar essa época bonita da minha vida com as desgraças que eu curto escrever. Sai quase na-da!
Achei o brilho e perdi a graça.
15.2.12
dar a cara a tapa
Vem, que eu já fiz o café, já penteei o cabelo, já arrumei o coração e lugar não te falta. Vem, que já abri as cortinas, varri o chão e lavei a cara. Vem, mas bate antes. E me espera abrir, que eu demoro. Pode vir e espera. Vem com o tapa que eu venho com a cara.
Uma amiga me dizia, pra gostar é preciso ficar vulnerável. Como é difícil estar vulnerável de novo. Como é difícil perceber que não se está vulnerável, que se é.
Eu nasci pro reamor.
2011.
26.9.11
madrugada e amor
Meu conceito de amor esteve quase sempre relacionado a movimento – e eis que você hoje balança esse que é de certo um dos meus conceitos mais fundamentais. Amor é movimento. É o que impulsiona. Certo? Errado – você tem me mostrado há alguns meses a capacidade que temos de ficarmos inertes diante de um sentimento novo. Estou aqui, sentindo sem dizer, escrevendo sem mostrar, desejando sem admitir. É madrugada e tudo o que eu fiz nas últimas horas foi o pensamento nas minúcias das nossas lembranças disfarçado de tentativa de sono. Eu nem quero esse sono. Sorrio sozinha, movimentada pelas expectativas escondidas em cada aresta de cada lembrança, em algo que foi dito de tal forma ou feito de tal jeito. É, pois, uma inércia seletiva, pois eu já cheguei a você, mas cheguei com limites muito bem definidos – e dizer com palavras certeiras o que tenho sentido esteve fora de cogitação. Estou inerte frente ao que eu sinto, esperando um primeiro passo seu que me dê a sensação de movimento, como quando o trem ao lado acelera e nós, de súbito, não nos sentimos mais parados.
Você não faz idéia, mas eu tenho escrito sobre a gente, e como; você nunca soube que um dia seria um desses caras por quem eu gasto os dedos e as palavras. Não soube que hoje é por você que eu encho os pulmões em um refrão que faz um determinado sentido, no meio de outros pulmões que expressam os próprios afetos para além de si. Eu sou essa pessoa hoje, melhor: você é essa pessoa pra mim. O impulsionante. E não conseguir dar movimento a toda essa experiência que tenho dentro de mim tem me transtornado bastante. Não digo falta de coragem; muito mais de perspectiva. Acho mesmo que, em algum lugar da minha vida e da sua, nossos caminhos tornaram-se paralelos e nunca mais vão se cruzar.
Que eu esteja errada.
2011.
20.7.11
da arte de comer quieto
Estive segurando um sentimento imenso em meu bolso, toque instável e mão firme; a esperança inútil, boba, incoerente - e eu não o sei? - de mantê-lo seguro do mundo, seguro de mim mesma, dos outros, do outro, quase como a Bruna que há uns quinze ou dezesseis anos apareceu em frente à família pedindo por biscoitos - a boca já suja de farelos de chocolate. O meu não-dito me grita.
2011.
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