Olha que coisa incrível: hoje me lembrei do Ninildes. E da Ninildes.
E pensei que, se consegui ter esquecido, é porque eu estava vivendo em outro lugar de mim. Lugar mais calmo, de menos palavras e de um silêncio sublime.
Não que a vida estivesse perfeita, não estava; acho apenas que encontrei outros caminhos de escape. Ou vivi caminhos inefáveis - inexpressáveis apesar de toda sua expressão.
Isso é bonito de ver.
Trecho do meu ano, em imagens, já que estou dando folga às palavras.
Garrafa e meia. Vinho tinto, demi-sec, como se eu soubesse. Meu barco desancorado. Céu de um
laranja áspero, cítrico, caprichoso. Brisa de outono, de ter escolhido o casaco
errado. Os olhos ao mar, marejados. As pontas dos dedos, distantes, não chegam à
água. Garganta de nó, enjoo de boca, parece que passa. O telefonema nem recebido já foi silenciado. Esfinges e dores que não se explicam e as ondas já levaram. Indo assim, à deriva, é só em mim que eu deságuo. Capitã tem um
problema: está de barco no asfalto.
Falo em um lirismo que ninguém interpreta direito. Meu olhar pega coisa que pouca gente vê. Percebo agora onde é que essas pontes se racham. O meu modo de funcionamento deve ser muito esquisito ao olho cru.
Sou uma pessoa de pele clara e cabelo escuro entre loiras-castanhas queimadas de sol. Tenho gostos peculiares e me importo com uns assuntos fora de pauta. Meu carioquês é meio fajuto e dá pau de vez em quando. Não como carne. E nem peixe - o pessoal cool tem adotado esse vegetarianismo às avessas em que se come frango e peixe, nunca entendi isso. O meu brinco é de um lado só. Minhas gírias são do fundo do baú. Eu escrevo, o que já me molda o olhar de uma tal forma que causa ruído em algumas relações; tem sempre alguém pra censurar meu lirismo fora de hora, ou rir dele. Gente que escreve tem uma tendência a ver tudo muito cheio de sentido. Eu chamo de um olhar desmerdificador - qualquer coisa serve, qualquer merda rende. Eu vejo uma graça a mais nas coisas, fazer o quê.
Sou fascinada por algumas esquisitices. Carrosséis, estrelas e animais me fazem sorrir. Tenho um pé na infância e outro na idade adulta, fazendo espacate, que a vida não esperou o meu amadurecimento e nem vai esperar o seu. Escuto música que nem adolescente - as pessoas vão envelhecendo e ficando chatas com a música, música vira plano de fundo do jantar. Eu não consigo manter sequer uma linha curta de pensamento enquanto a voz do artista ecoa e me perturba e me invade a mente e os afetos. A música me atravessa, ainda - eu sou adolescente musicalmente. Ainda conheço a sensação da idolatria. Tenho uma tatuagem com uma frase de um filme pouco estimado pela mídia, e meus amigos têm borboletas e tribais do Google. Como foi que aconteceu de eu ser tão à parte do mundo e me dar conta disso agora?
Eu sou um ponto preto em meio a uma imensidão de pontos brancos, e isso me transtorna. Tenho pra mim mesma que eu deveria admitir essas nuances pessoais como qualidades da minha singularidade, mas a sensação primeira é de que a distoância é um modo desconfortável de existir. Existe essa palavra? Distoância? Eu invento. Cabe ao meu senso. Meu senso de ridículo, meu senso de estética, de padrão, de normas parece ter um limiar um pouco diferente do que se propõe.
Sou diferente, ou vai ver sou igual, o mundo é que ainda não saiu do armário pra combinar comigo.
Love Ain't Gonna Let You Down by Jamie Cullum on Grooveshark
Vem, que eu já fiz o café, já penteei o cabelo, já arrumei o coração e lugar não te falta. Vem, que já abri as cortinas, varri o chão e lavei a cara. Vem, mas bate antes. E me espera abrir, que eu demoro. Pode vir e espera. Vem com o tapa que eu venho com a cara.
Uma amiga me dizia, pra gostar é preciso ficar vulnerável. Como é difícil estar vulnerável de novo. Como é difícil perceber que não se está vulnerável, que se é.
Estive segurando um sentimento imenso em meu bolso, toque instável e mão firme; a esperança inútil, boba, incoerente - e eu não o sei? - de mantê-lo seguro do mundo, seguro de mim mesma, dos outros, do outro, quase como a Bruna que há uns quinze ou dezesseis anos apareceu em frente à família pedindo por biscoitos - a boca já suja de farelos de chocolate. O meu não-dito me grita.
Esse esforço pra esconder o que eu sinto, a que me leva? A quem me leva?